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Da irracionalidade na política-que-temos

Posted in De olhos bem abertos por APEDE em 29/10/2011

Ao invés de uma ideia que circula por aí, e que ainda hoje procuramos inculcar nas crianças, o ser humano não é um animal racional. Pelo contrário, a irracionalidade é o seu traço mais marcante, é a sua diferença específica.

Essa irracionalidade manifesta-se, entre muitos outros aspectos, pelo facto de que, confrontado com a necessidade de optar entre diversas alternativas para a resolução de um problema, uma boa parte dos humanos escolhe precisamente aquela que lhe é mais prejudicial, mesmo quando todas as evidências revelam ser esse o resultado previsível de uma tal escolha.

Este fenómeno é cabalmente ilustrado por tudo o que está acontecer, hoje em dia, nessas duas regiões do sistema mundial capitalista que são a Europa e os Estados Unidos. No caso particular da Europa, vemos desafiadas todas as regras da lógica no comportamento dos dirigentes políticos da União Europeia e da sua Zona Euro: perante a demonstração de que uma dada receita para a saída da crise é um completo fiasco, os chamados «líderes europeus» entendem que a alternativa é… aplicar uma dose reforçada da receita que falhou. O resultado é tanto mais irracional quanto, a breve prazo, isto vai levar à morte da galinha dos ovos de ouro do capital financeiro. Portanto, nem se pode dizer que esta irracionalidade política está, lá bem no fundo, ao serviço da racionalidade perversa do capital. Não, isto é mesmo estúpido até do ponto de vista dos interesses dos donos do dinheiro.

Só que nunca podemos menosprezar a cegueira irracional que habita qualquer crença dogmática. Neste momento, temos uma geração de políticos, à frente da Europa, que acreditam mais no que vem nos seus manuais de economia monetarista do que naquilo que a realidade lhes deveria estar a meter pelos olhos dentro.

Outro aspecto que confirma a sua irracionalidade básica: a grande maioria das pessoas fortemente afectadas (exploradas, oprimidas) pelos poderes constituídos recusa-se sistematicamente a tomar consciência da força que decorre, entre outros factores, do seu número incomparavelmente superior ao dos que as dominam. Sendo assim, em lugar das acções anti-opressivas que facilmente poderiam encetar, preferem a auto-ilusão de iniciativas meramente simbólicas de protesto cujo efeito consiste em compensar, no plano imaginário (e nunca material), a sua impotência real. 

Aqui a irracionalidade está do lado daqueles que se sentem plenamente gratificados com a ocupação de praças, de ruas ou de avenidas, e que, pelos vistos, nunca equacionam ocupar empresas, parlamentos ou ministérios. É a irracionalidade daqueles que gritam «não pagamos!» nas manifestações, ao mesmo tempo que têm, de facto, os vencimentos drasticamente reduzidos, que sofrem os aumentos de impostos em tudo o que consomem e que, no emprego, vergam a mola perante os ditames arbitrários de patrões, de chefias ou de directores. É a irracionalidade dos que fazem um dia de greve para, no dia seguinte, continuarem a trabalhar em condições de despotismo ou de precariedade que permanecerão intactas. É, em suma, a irracionalidade dos que querem mudar sem nada fazerem que seja minimamente eficaz para essa mudança.

Vivemos, hoje, um duplo paradoxo – que é também uma dupla irracionalidade e um duplo falhanço:

– Os detentores do poder político insistem numa estratégia de fracasso que vai arrastar, consigo, a União Europeia e o euro como moeda comum e que, a não ser travada, terá como consequência a implosão da Europa e de uma grande parte do mundo capitalista.

– Mas os que se opõem a essa voragem suicida estão também, eles mesmos, empenhados numa estratégia de fracasso, escolhendo formas de “luta” e de “resistência” puramente virtuais e ilusórias que, na verdade, só confirmam a impotência (veja-se o saldo dos combates de rua na Grécia) e o medo de mudar efectivamente o que quer que seja.

A patalogia subjacente a estes comportamentos foi identificada, há muito tempo, por um certo vieenense. Chama-se «compulsão à repetição».

8 Respostas to 'Da irracionalidade na política-que-temos'

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  1. Zé Manel said,

    Vamos com calma, pessoal. É verdade que a irracionalidade é uma “virtude” cultivada por bastantes políticos da nossa praça e não só. Mas não é verdade que gritar “não pagamos”, ou ocupar ruas e praças seja uma irracionalidade. Pelo contrário. Por um lado, essas formas de luta podem e devem ser encaradas como degraus na escalada da afirmação de uma consciência popular que desejaríamos mais difundida, mas é a que temos. Por outro lado, experiências recentes da primavera árabe, de Seattle ou de Wall st, mostraram que essas vias podem de facto conduzir a importantes alterações políticas, como queda de ditadores, abertura de vias democráticas, mudança de decisões políticas, etc. Essa é portanto uma das vias a prosseguir a todo o vapor de modo a desmontar permanentemente os argumentos falaciosos da inevitabilidade e da inexistência de alternativas. Não é evidentemente a única, claro, mas é a mais elementar, a mais próxima, a mais fácil de executar, a menos custosa (porque isto tb tem custos) e a que está mais ao alcance. Não sei será a ideal ou não. Mas nestas coisas, o ideal costuma ficar sempre bem longe do possível. A cada passo temos sempre de escolher o que podemos e o que não podemos.

    • Mário Machaqueiro said,

      Meu caro,

      Não queiras equiparar as nossas paupérrimas manifestações domésticas com o movimento de massas da “primavera árabe” – do qual, aliás, não é nada líquido que saia algo parecido com uma democracia. E das manifestações em Seattle e em Wall Street já saiu alguma coisa? Esperemos para ver – embora eu continue descrente da força transformadora de manifestações que não sejam acompanhadas por intervenções noutros terrenos (e a história está cheia de exemplos de como as mais intensas manifestações e até greves bem aguerridas podem deixar tudo na mesma e esfumarem-se no ar. O Maio de 68 em França é um bom exemplo disso).
      Seja como for, o que há de profundamente irracional no “slogan” «não pagamos», quando proferido por tugas que amocham todos os dias em que não se estão a manifestar, é a completa desvinculação relativamente ao real. Queres outro exemplo da irracionalidade em versão portuguesa? Os automobilistas que buzinam contra o aumento das portagens e que… continuam a pagá-las!
      Moderar o entusiasmo e o prazer que nos dá embarcar em missas colectivas não significa a mera queda no cepticismo e na desmobilização permamente. Significa arranjarmos espaço, nas nossas cabecinhas, para pensar. Pensar os objectivos que desejamos realmente atingir e os meios que devemos usar para os alcançar. Como se diz em psicanálise, isso é passar do «princípio de prazer» ao «princípio de realidade». Os que se ficam pelo protesto infantil, julgando que estão a mudar alguma coisa, aceitam permanecer apenas no primeiro desses princípios.

      • Zé Manel said,

        Não me parece que haja uma desvinculação do real tão grande como afirmas. Eu próprio fiz um cartaz, entretanto muito reproduzido, que diz: “Não Esbanjámos- Não pagamos!” Trata-se de alertar as pessoas para a necessidade de desmontar o discurso do poder, de destruir a teoria da inevitabilidade dos sacrifícios. Isso não é anestesia nem fuga ao real, é o primeiro passo para se inverter o percurso suicida que nos querem obrigar a trilhar. Claro que muitos outros passos são necessários, mas temos de começar pelo princípio, ou seja pelo protesto e partir daí para outros patamares como no teu exemplo dos automobilistas, que seria nesse caso óbviamente inutilizar os detectores dos pórticos. Mas lá chegaremos…..!

  2. Leitor said,

    Bibliografia recomendada para iniciados no sindicalismo esotérico, telepático e transcendental:

    http://www.mentalismo.net/bibliografia.php

  3. maria said,

    Mário, este “leitor” adesivo nunca estudou Filosofia…

  4. maria said,


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