APEDE


Para uma refundação (utópica) do sindicalismo em Portugal

Posted in Sindicalismo no contexto actual por APEDE em 30/11/2011

E voltamos ao assunto. Incontornável, como sói dizer-se. A malvada da «vaca fria». 

Perante a enormidade e a gravidade da regressão social e política que estamos a viver, só mesmo os situacionistas da “luta”, aqueles para os quais tudo está bem desde que saia de um comité central ou de uma direcção tão infalível como o Papa, é que podem mostrar-se satisfeitos com a resposta anémica que os sindicatos têm dado ao momento actual. Em Portugal como na restante Europa (porque o problema, hélas, não é só português).

Vem isto a propósito de um artigo do Paulo Guinote que saiu ontem no Público, pugnando por um «sindicalismo não-indiferenciado».

Em síntese, o argumento do Paulo é o seguinte: o movimento sindical – e aqui talvez pudéssemos acrescentar: em Portugal como lá fora – está a seguir a estratégia errada de apostar na fórmula costumeira da unidade dos trabalhadores em geral, sem cuidar de atender às reivindicações sectoriais, não percebendo que, no mundo de hoje, os trabalhadores já não formam um proletariado indiferenciado com uma causa comum, mas sectores laborais marcados por problemas específicos. Sectores que se mobilizam muito mais facilmente em torno de questões que lhes tocam de perto. No entender do Paulo, um sindicalismo que incorporasse estas realidades teria de se reaproximar das bases laborais que diz representar e de retomar a ligação com as suas exigências próprias. A não fazer isto, ficar-se-á por aquilo que o autor tem vindo a designar, com piada e com acerto, a «coreografia» da «luta».

A este argumento conviria, talvez, juntar o texto igualmente estimulante que o «Farpas» escreveu, onde se mostra como certas «acções de luta», ao gosto das direcções sindicais, se esvaziam facilmente perante um universo laboral fragmentado e atomizado, no qual o velho proletariado da vulgata marxista-leninista cedeu o lugar a um «consumariado» individualista e hedonista.

O que temos a dizer sobre tudo isto? Em princípio, diríamos que, nos tempos que correm, uma coisa não deveria excluir a outra. Isto é: as lutas laborais à escala dos diferentes sectores profissionais não eliminam a necessidade de se construir um combate muito mais transversal, quando se sabe que o ataque aos direitos sociais e laborais é, de facto, global e transnacional. Afectando, de resto, grupos que só com dificuldade encontram expressão em sindicatos que foram historicamente formatados para representar trabalhadores com determinadas características. Hoje há todo um oceano de desempregados, de trabalhadores sujeitos às mais diversas formas de precariedade – contratos a prazo, recibos verdes, bolseiros de investigação sem direito a segurança social mas que são obrigados a trabalhar a custo zero em instituições do Ensino Superior, etc., etc. Nenhum destes casos encontra fácil abrigo no guarda-chuva sindical. E, no entanto, a sua mobilização e a necessidade de os articular com as lutas de trabalhadores em situação menos precária (e mais “sindicalizável”) seria absolutamente premente nos dias de hoje. Pois eles vão ser – já começam a ser – a grande massa do futuro próximo.

Mas o Paulo tem razão num ponto fundamental. De facto, não faz sentido esperar que os trabalhadores se mobilizem para acções «conjuntas» quando, na esfera laboral que lhes é próxima, os sindicatos se notabilizam pela cedência, pelo recuo, pela ambiguidade e, em última instância, pela traição do mandato que os trabalhadores neles depositam. E também não faz sentido esperar que estes últimos participem em “grandiosas” iniciativas de “unidade”, quando elas se resumem ao pacote mais rotineiro e, por isso, mais desajustado face à gravidade do momento presente: manifestações/procissões de rua, seguidas da inevitável missa com os oradores de sempre – os mesmos que se mantêm oligarquicamente agarrados às direcções sindicais como lapas; e greves gerais de um dia, realizadas uma vez por ano e, se possível, no mesmo dia do mês (os dirigentes sindicais devem achar que estas simetrias têm imenso simbolismo, vá-se lá saber porquê). Iniciativas que não deixam qualquer rasto, e que servem apenas para alimentar a alucinação colectiva de que se está a lutar “muito” e a boa consciência dos “lutadores” – os quais, esgotadas essas “jornadas”, regressam às pequenas misérias do seu quotidiano laboral sem que nada de substantivo tenha mudado.

Uma outra exigência se impõe. Mas, chegados a este ponto, temos de reconhecer vários becos sem saída:

– As direcções dos sindicatos e das centrais sindicais – de cujas orientações estamos dependentes – mostram-se mais empenhadas em proteger as rotinas que lhes assegurem a perpetuação nos cargos do que em arriscar um sindicalismo efectivamente combativo.

– Os trabalhadores, mesmo os que ainda vão participando nas tais lutas «coreografadas», acumularam um capital (justificado) de desconfiança em relação às direcções dos sindicatos que é, hoje, muito difícil de ultrapassar. Ainda que essas direcções se resolvessem a arrepiar caminho e a apontar para formas de resistência muito mais determinadas, as quais exigiriam (por exemplo) a constituição de fundos de greve.

– As lutas mais consequentes, e eventualmente mais eficazes, como as greves por tempo indeterminado, requerem um tempo de preparação e de maturação que não se compadece com a urgência que hoje nos afecta. E requerem a reconstrução da confiança nas direcções sindicais que também não se adquire de um dia para o outro.

Como sair daqui é a grande incógnita. Aquela que devia mobilizar as nossas meninges, sem preconceitos, sem ideias adquiridas, sem antolhos ideológicos.

 Estamos abertos a sugestões (e fechados aos cães-de-fila que queiram arreganhar o dente sem o resquício de uma ideia na bagagem).

E enquanto o pessoal anda distraído com a bola e o fado…

Posted in À beira do abismo por APEDE em 28/11/2011

Para a restauração dos três “ff”: Fado, Futebol e Fátima

Posted in Ai Portugal por APEDE em 27/11/2011

Já tínhamos os três pastorinhos devidamente beatificados.

O futebol também já tinha a beatificação das massas.

Só faltava o faduncho. Pronto: já cá canta!

“Levados, levados, sim!…”

 

Ainda o “day after”

Posted in Ai Portugal por APEDE em 26/11/2011

O Estado-esmoleiro num país de mão estendida

Posted in Ai Portugal por APEDE em 26/11/2011

Estando hoje a decorrer mais um campanha do Banco Alimentar contra a fome, pensamos como é cada vez mais pertinente a caracterização que o sociólogo Boaventura de Sousa Santos faz de Portugal: uma país onde um Estado-Providência anémico teve sempre de ser compensado por uma «sociedade-providência» de ajudas ou de socorros mútuos. Acontece que o governo actual, ao serviço de predadores e de usurários, está empenhado em demolir o pouco que ainda resta dessa rede de protecção social garantida pelas solidariedades entre vizinhos ou no seio de famílias urbanas que dispõem da sua courela como pequeno «banco alimentar».

Seja como for, a lógica da esmola está a impor-se. E, como se vê, já está a atingir as instituições do Ensino Superior:

Cortes levam universidades a apostar em donativos de alunos.

Repressão policial com o rabo (oportunista) de fora

Posted in Coisas que fazem revolver as entranhas por APEDE em 26/11/2011

É verdade que, nos distúrbios de anteontem frente à Assembleia da República – aos quais uma comunicação social pavloviana e subserviente concedeu uma atenção desproporcionada – os instigadores à violência obtiveram os seus fins por ter havido “instigáveis” que se puseram, parvamente, a jeito. Mas isto que está a ser denunciado aqui, aqui e aqui, caso se venha a confirmar, é de uma gravidade que ultrapassa todos os limites do tolerável em democracia e no chamado «Estado de direito» (designação cada vez mais inapropriada para este lupanar mal frequentado).

E depois o estômago ainda se revolve mais quando ouvimos o presidente do Sindicato Nacional dos Oficiais de Polícias considerar que os incidentes ocorridos durante a greve geral – alguns dos quais, pelos vistos, fomentados por polícias infiltrados – são um sinal de que a violência vai aumentar no futuro próximo, usando este argumento para justificar que o governo aceite… algumas das reivindicações dos polícias

Se for verdade o que circula por aí, estamos perante uma táctica reivindicativa brilhante! Os polícias estão proibidos de fazer greve, mas, como se vê, terão arranjado maneira de contornar o problema, diversificando as formas de fazer valer as suas reivindicações: infiltram manifestações, criam desacatos, distribuem pancada a pretexto dos «incidentes» que eles próprios fomentaram, e, no fim, invocam a legitimidade do seu caderno reivindicatico com a maior das canduras.

Sim senhor! Chama-se a isto criatividade na luta laboral! O pormenor chato é que é feita contra outros trabalhadores e contra manifestantes que, de forma mais ou menos eficaz, protestam contra um estado de coisas que também afecta a classe profissional dos polícias…

 

Uma excepção à crítica das greves gerais de um dia

Posted in Escrito na areia por APEDE em 25/11/2011

Uma greve geral, para o mesmo dia, nos países da União Europeia ou, pelo menos, nos países da UE que mais sofrem com as medidas austeritárias (Grécia, Portugal, Espanha, Itália, Irlanda, etc.). Também é só simbólica. Mas é um simbolismo capaz de incomodar o real.

Para greves que causem mossa

Agora que se cumpriu mais uma greve anual, vivida por alguns como se fosse o acontecimento revolucionário das suas vidas, vale a pena pensar um bocadinho no que podem ser greves a que valha realmente a pena aderir – sobretudo num momento como o que estamos a atravessar.

Comecemos por recordar o que é, de facto, uma greve. Ela não é, no essencial, uma forma de protesto. É, isso sim, um instrumento de pressão reivindicativa que consiste em suspender, por tempo indeterminado, a actividade laboral até que o patronato ou uma autoridade política (um governo) cedam a uma de duas exigências: encetar um processo de negociação com os trabalhadores em torno de um caderno reivindicativo ou aceitar, desde logo, as reivindicações que motivaram a greve. No seu sentido histórico original, greve é isto.

Reconhecemos, no entanto, que hoje em dia é extremamente difícil, se não impossível, mobilizar os trabalhadores para greves como as que acabámos de definir. Se, no passado, o movimento operário conseguiu aderir a este tipo de forma de luta, tal explica-se pela conjugação do desespero extremo com a noção de que quase nada  havia a perder. Em contrapartida, a ascensão social dos trabalhadores, e a completa transformação dos espaços laborais e da própria natureza do trabalho, levaram a que agora as pessoas sintam que há muito a perder em greves que impliquem uma hemorragia salarial prolongada. Iludir isso seria desvincularmo-nos da realidade.

No entanto, entre greves de um dia, realizadas uma vez por ano sem quaisquer efeitos duradouros, e greves por tempo indeterminado há todo um espectro de géneros de greve que poderia perfeitamente ser explorado pelas direcções dos sindicatos e pelas centrais sindicais. Pode haver greves sectoriais repetidas mensalmente ou com outra periodicidade regular, pode haver greves de vários dias seguidos, pode até haver greves gerais efectuadas com maior regularidade.

O risco que se corre, claro está, é o da banalização que esvazia este instrumento de pressão. Afinal, os gregos já vão na 19.ª greve, sem que delas tenha resultado a mais pequena inversão do drama em que se encontram. Para quem está de fora, contudo, a sensação é que também os gregos têm usado as greves mais como expressão simbólica de protesto do que como forma de pressão planeada com base num conjunto muito claro de exigências e de alternativas. Não admira que, assim, as greves percam conteúdo, independentemente da sua capacidade de mobilização (a qual, na Grécia, até tem sido grande).

Seja como for, o regresso a greves que sejam mais do que protestos só se fará se, por um lado, os trabalhadores mostrarem forte motivação para as fazer, e se, por outro, as direcções sindicais estiverem empenhadas em prepará-las. E esta responsabilidade é dupla: nem os trabalhadores podem ficar numa postura meramente passiva, esperando que os sindicatos actuem por eles, nem as direcções sindicais se podem limitar a convocar greves muito mais exigentes sem uma prévia e prolongada acção de agitação no terreno.

Por fim, há ainda outro aspecto fundamental a considerar. Em Portugal, como provavelmente noutros países europeus, as maiores taxas de sindicalização e de adesão às greves situam-se, esmagadoramente, nos corpos profissionais da Função Pública e dos Transportes públicos. O sector privado é, nos tempos que correm, um quase deserto em matéria de sindicalização, de consciência laboral e de capacidade de mobilização. Um deserto pontuado por pequenas e médias empresas cuja escala fragiliza ainda mais o potencial reivincativo de quem aí trabalha. Daí que uma expressão como «greve geral» seja, entre nós, enganadora. Não sabemos como é possível inverter esta situação. Uma situação que nasce, em grande medida, da precarização contratual, comum para a maioria dos trabalhadores privados, e do medo ou chantagem implícita que ela exerce.

Como atrair os trabalhadores do sector privado para greves feitas a sério é um dos desafios que deveriam estar já a ocupar as cabeças dos dirigentes sindicais. Se isso não for feito, e se as formas de luta se vierem a radicalizar no seio da Função Pública, corremos o risco de balcanizarmos o mundo laboral e de surgirem clivagens entre trabalhadores de Estado e trabalhadores de empresas particulares. 

A agenda está, pois, carregada e incerta.  Tal como o  horizonte que nos espera.

E amanhã?

Posted in De olhos bem abertos por APEDE em 24/11/2011

Tal como um dos nossos últimos “posts” recordavam o texto que publicámos aqui há um ano atrás, relembramos agora o que escrevemos em 24 de Novembro de 2010. Com a percepção de que nada mudou e com a convicção (dolorosa) de que nada mudará nos tempos mais próximos. Mesmo que os “donos” da “luta” proclamem, demagogicamente, o contrário.

Hoje realizou-se uma greve geral. Ou seja: uma daquelas formas de luta que, pela sua amplitude, deveria ser muito mais do que um protesto, pensada numa perspectiva de continuidade e usada para fazer avançar, de forma eficaz e contundente, um caderno reivindicativo bem claro.

E agora?

E amanhã?

Amanhã os grevistas de hoje (todos nós) voltarão ao trabalho, para serem apascentados na ignomínia quotidiana em que se transformou boa parte das relações laborais.

Amanhã os grevistas de hoje estarão a deitar contas à vida, à espera do Janeiro que trará o Inverno e as reduções salariais.

Amanhã os grevistas de hoje vão ranger os dentes sem saberem o que fazer a seguir para se libertarem do buraco social onde foram enfiados.

Amanhã os grevistas de hoje vão regressar ao desespero manso de quem quer recusar a fatalidade do empobrecimento como horizonte, sem que, ao mesmo tempo, lhe consiga vislumbrar uma saída.

A menos que…

E, já agora, acrescentamos um “post” de João Lisboa, crítico musical no Expresso e blogger nas horas livres, que diz o mesmo que nós por outras palavras:

ORDEIRAMENTE ENQUADRADO O “DESCONTENTAMENTO”, DEVIDAMENTE ACTIVADAS AS VÁLVULAS DE ESCAPE PARA A “INDIGNAÇÃO”, ENTREGUE UM DIA DE SALÁRIO A BEM DA NAÇÃO E ASSEGURADA MAIS UMA ALÍNEA NO CV DOS MANDARINS SINDICAIS, SEXTA-FEIRA 25.11.11 SERÁ APENAS UM DIA IGUAL AOS OUTROS

Reflexão em dia de greve geral

Posted in Contra o pensamento único por APEDE em 24/11/2011

Vivemos hoje uma fase que é, talvez, única e inédita na história da luta dos povos pela sua emancipação e pelos direitos sociais.

O seu carácter novo reside nisto: enquanto toda a história anterior foi feita num crescendo de conquista de direitos que não estavam, antes disso, nem pensados nem consagrados, agora assistimos ao processo inverso: o da demolição e da retirada gradual desses direitos. Com uma agravante: o que dantes foi concebido como um direito é agora reescrito, no discurso hegemónico, como um privilégio ou uma regalia injustificada. E este último aspecto no ataque aos direitos sociais é, porventura, o mais terrível de todos. Porque desqualifica os direitos na cabeça de quem deles se vê privado, impedindo que as pessoas reconheçam essa privação e lutem contra ela. Porque torna muito mais difícil, se não mesmo impossível, reconhecer a necessidade desses direitos e a ilegitimidade da sua ausência.

A regressão que estamos hoje a sofrer não se dá apenas no usufruto dos direitos sociais. Dá-se também na capacidade colectiva de pensá-los e de exigi-los.

Chama-se a isto ideologia dominante.

Em Portugal, ela está a ter uma tremenda eficácia.

O sindicalismo de véspera e os piquetes de greve

Posted in Mobilização/Desmobilização,Os-sindicatos-que-temos por APEDE em 23/11/2011

Reuniões sindicais, nas escolas, na véspera de manifestações e greves gerais? A sério?

Ao menos tivessem o decoro de evitar a véspera

Seria bom avaliarem melhor isso pois, se calhar, em vez de mobilizarem, desmobilizam. E até somos capazes de apostar que, desta vez, o plano não é esse.

Reuniões sindicais nas escolas? SIM! Absolutamente SIM! Mas, de preferência, muito mais regulares e levando ouvidos!

Quanto à anunciada intenção de constituição de piquetes de greve para sensibilizarem os colegas, à porta das escolas, no sentido de aderirem à greve, informando-os da necessidade e importância da luta, não será esta a mais acabada confissão do fracasso dos sindicatos no seu trabalho sindical? Se a pedagogia da luta tivesse sido cuidada, e desenvolvida ao longo do tempo, em proximidade com as bases e de uma forma regular… seriam necessários piquetes de greve? Fica a questão.

P.S. – Já agora: que raio se passa em Sintra que nem teve honras de integrar esta lista? E que dizer disto? A redução do crédito de horas para trabalho sindical/destacamentos, imposto pelo ME, explicará tudo?

Da dificuldade de pensar e agir para além do imediato

Posted in Escrito na areia por APEDE em 23/11/2011

Entre nós, uma das limitações que tem pesado mais sobre as lutas laborais reside na dificuldade em pensar e agir para além do imediato. Esta imediatez relaciona-se, quase sempre, com os interesses corporativos ou as necessidades sectoriais mais básicas. Sendo muitas vezes prementes, e podendo corresponder a situações pessoais dramáticas – como a precariedade do posto de trabalho -, a excessiva concentração nesses interesses ou nessas necessidades impede-nos de ver o quadro mais amplo – no qual se joga o essencial.

Como sabemos, a luta dos professores em 2008 ilustra bem o que acabámos de referir. Deixámos que as nossas exigências, o nosso caderno reivindicativo, se afunilassem no “magno” problema da avaliação do desempenho docente. E fomos, entretanto, descurando toda uma série de ataques que estavam a ser desferidos contra a profissão de professor e contra a Escola enquanto espaço de relações laborais. Resultado: enquanto andávamos obcecados com as grelhas de avaliação, consentimos que se instalasse nos estabelecimentos de ensino um modelo de administração antidemocrático e tendencialmente despótico, criámos condições para que os laços de solidariedade entre colegas se rompessem ou se diluíssem nos calculismos individuais, permitimos que o ambiente de trabalho passasse a ser regulado pela norma do “cada um por si e os outros que se lixem”. Em suma, a nossa miopia colectiva abriu caminho para o sentimento de impotência que hoje experimentamos – e que contrasta, de modo cruel, com a euforia (desajustada) que muitos sentiram nos idos de Março e de Novembro de 2008.

Além disso, o afunilamento da luta de professores traduziu-se, igualmente, em duas incapacidades: a incapacidade de propor alternativas, sólidas e coerentes, aos modelos que contestávamos – começando pelo próprio modelo de avaliação -, e a incapacidade de apresentar, perante o conjunto da sociedade portuguesa, um pensamento alternativo para o sistema de ensino e para a Escola Pública. Ainda hoje somos confrontados com esta crítica por parte de quem, não sendo professor, observava de fora o combate que travávamos: «Parecia que vocês só se preocupavam com os problemas da vossa carreira e que não tinham uma única ideia para contrariar a destruição da Escola em Portugal». Olhando para trás, quem pode dizer que esta crítica é injusta?

E, neste ponto, não vale a pena passarmos culpas para os sindicatos. Ainda que eles possam ter uma palavra no assunto, não faz parte do seu mandato e da sua cultura reivindicativa pensar as grandes questões do ensino e da Escola Pública que transcendam a agenda profissional mais imediata. Caberia aos professores fazê-lo, participando noutras plataformas que eles próprios fossem capazes de construir.

Os movimentos independentes poderiam ter preenchido essa lacuna. E todos aqueles que neles se envolveram sabem perfeitamente como tal necessidade foi muitas vezes invocada e discutida. Tivemos longos debates sobre a melhor maneira de projectar para a opinião pública a ideia de que não estávamos apenas a cuidar de interesses sectoriais limitados, que não estávamos só a olhar para o umbigo. Mas a verdade é que nunca conseguimos passar das boas intenções retóricas. Pela blogosfera circularam algumas ideias, por vezes excelentes mas sempre fragmentárias. E, sobretudo, desprovidas da necessária projecção pública. Ficámos a falar uns para os outros. E, demasiadas vezes, ficámos a falar sozinhos.

Na APEDE procurámos ultrapassar esta falha, construindo uma proposta alternativa para o sistema de ensino com um carácter abrangente. Mas, e não obstante o nosso esforço e as muitas horas de debate criativo a que nos entregámos, há que reconhecer que o fizemos tarde, excessivamente tarde, e sem o tal conhecimento público. Houve alguma discussão blogosférica, breve e esparsa, e a coisa ficou arrumada e esquecida.

Diga-se que, no Ensino Superior, o panorama não é diferente. Talvez até seja pior. Confrontados com a instauração de um modelo de administração tão autoritário e antidemocrático como o que vigora actualmente no Básico e  no Secundário, os professores e investigadores têm-se limitado a cuidar da vidinha e a esgravatar em busca de um lugar ao sol. Às vezes num regime de competição selvagem, porque o sol, quando nasce, é cada vez menos para todos. Se a isto juntarmos o facto de a hierarquização das carreiras no Ensino Superior se fazer com base em estratos incomunicáveis entre si, o isolamento de cada profissional é muitíssimo maior. Isso faz com que os professores, mesmo quando contratados a prazo, dificilmente reconheçam o que têm em comum com os bolseiros de investigação que vivem em condições de precariedade absoluta (sem sequer terem direito a segurança social).

Entretanto, também os profissionais da ciência e do Ensino Superior revelam uma incapacidade notória em pensar a Universidade ou a Ciência para além da agenda reivindicativa mais imediata e mais presa aos constrangimentos da carreira ou da profissão.

Toda esta cegueira para com o tal cenário global onde tudo se articula, todo este défice de pensamento – mais trágico do que o défice financeiro -, é o que nos está a entregar, de pés e mãos atados, àqueles que, calmamente, vão urdindo na sombra o quadro que nos recusamos a ver.   

Purificando o ar

Posted in APEDE por APEDE em 21/11/2011

Nunca definimos aqui uma política restritiva em relação às caixas de comentários. Porque entendemos que um blogue é também (ou pode ser) um fórum de discussão, de troca de ideias, de debate que, sendo por vezes aceso, deve visar a construção de pensamentos partilhados. Mesmo quando a partilha implica a divergência.
Mas é claro que um blogue desta natureza, que não foge à controvérsia e que incomoda pela sua atitude de dissidência relativamente aos pretensos donos da “luta”, expõe-se a ser visitado pelos cães-de-guarda do situacionismo político. Estes não estão interessados em manter um debate com um mínimo de elevação. Estão apenas apostados em poluir a atmosfera com os seus métodos habituais: a difamação e as insinuações desonestas, a distorção dos argumentos, a tresleitura permanente, as “bocas” parvas, etc., etc.

Quando o “debate” desce a este nível, a tentação é acompanhar-lhe a tendência e responder com troco do mesmo jaez.

Para evitar semelhante trajectória, que só faz perder tempo a quem procura, nas nossas caixas de comentários, algo que tenha efectivo interesse, tomámos uma espécie de decisão editorial: doravante, quem entre aqui a querer puxar a conversa para o nível da chinela e do chocarreiro, tem o destino traçado: vai direitinho para o caixote do lixo.

Por enquanto, não vamos optar, como outros se sentiram forçados a fazer, pelo condicionamento ou pela filtragem prévia dos comentários. Sabemos como isso é aborrecido e frustrante para os que pretendem expor as suas opiniões de maneira sadia. Mas não hesitaremos em fazê-lo se for esse o único meio de travar o cano de esgoto.

Estamos entendidos?

Galopa cavalo cuatralvo, ginete do povo, que a terra é tua

Posted in Interlúdio luminoso por APEDE em 21/11/2011

Quando a canção é enorme, basta um cantor e uma guitarra para conquistar um auditório imenso.

Roubado daqui

Eis no que deu o «pós-modernismo»

Posted in Congelados e à espera de melhores dias por APEDE em 21/11/2011

Há uns anos atrás, muito se falava do «fim da história» e do «fim das grandes narrativas» da modernidade. E vários pensadores influentes celebravam a emergência de uma condição histórico-política na qual o presente, o passado e o futuro se confundiam e se equivaliam. Uma Babel, nem feliz nem infeliz, de onde a ideia de progresso fora evacuada ou retida apenas como paródia de si própria.

Agora já ninguém fala de «pós-modernismo». Foi uma daquelas etiquetas conceptuais que relegamos para o esquecimento mais depressa do que o fazemos com o rótulo de uma embalagem de supermercado. Mas começamos a perceber onde nos conduziu o tempo histórico que designámos dessa forma.

Conduziu-nos aqui, à situação que Rui Bebiano descreve neste texto.

Não que as alternativas ao sistema vigente tenham desaparecido, numa altura em que o sistema se revela incapaz de criar alternativas para si a partir de si mesmo (essa capacidade de regeneração “permanente” que muitos atribuíam ao capitalismo). A nossa condição actual é outra: é uma condição em que nenhuma das correntes políticas em confronto consegue (ou está interessada em) articular essas alternativas de modo a transformá-las num movimento politicamente mobilizador.

E aqui estamos. Por quanto tempo? 

 

Sobre as elevadas qualificações dos nossos ministros das Finanças

Posted in Conversa de escárnio e mal-dizer por APEDE em 20/11/2011

Bem observado. E se pensarmos que muitos professores catedráticos correspondem aos maiores cretinasnos que a Universidade alberga (quem não os sofreu nas suas licenciaturas?), é fácil prever que a “ciência” económica teria de contar com um bom número deles. O pior é que, neste caso, tais nulidades têm o poder de, com a sua estupidez, darem cabo de sociedades inteiras…

O PS a caminho de realizar todo o seu potencial…

Posted in Partido "Socialista" por APEDE em 20/11/2011

… Mergulhar na total inanidade política:

Pensado (brilhantemente, como sempre) aqui e gozado aqui.

Greve geral, passado um ano…

Posted in O eterno retorno por APEDE em 20/11/2011

Há um ano atrás, a propósito da greve geral de 24 de Novembro de 2010, publicámos o texto que recordamos a seguir. Substitua-se a data da manifestação, de 6 para 15 de Outubro, e o texto permanece perfeitamente actual. Diríamos: terrivelmente actual. E acrescentamos: frustrantemente actual. Pois a sua actualidade significa que, passado um ano, nada de essencial se modificou, a não ser nas condições de vida (cada vez piores) dos trabalhadores portugueses. À atenção dos que se arrogam em donos da “luta”, e que muito pouco têm feito…

No dia 24, a maior parte dos membros da APEDE, pelo menos na sua direcção, irá fazer greve.

O motivo da nossa adesão prende-se com as mesmas razões que nos levaram a participar na manifestação do passado dia 6:

porque achamos que é necessário dar um sinal público do mal-estar, da insatisfação profunda e do sentimento de revolta perante uma política inteiramente orientada para espoliar os trabalhadores, à escala europeia, e para reforçar um mecanismo de distribuição de riqueza particularmente perverso: dos bolsos da classe média-baixa e dos mais carenciados para as contas off-shore da minoria composta pelos muito ricos. Pois a isto se resume as famosas medidas «de austeridade» que governos serventuários andam a impor por essa União Europeia fora.

Fazemos greve porque consideramos fundamental que os actuais detentores do poder percebam a dimensão do nosso descontentamento e da nossa oposição a esta política.

Fazemos greve porque queremos contribuir para a construção de um movimento unitário capaz de juntar trabalhadores de profissões muito diversas, precários e efectivos (estes bem mais fragilizados do que se pensa), num esforço de recusa e de resistência.

Fazemos greve, em suma, porque não aceitamos que nos apresentem a injustiça social como uma fatalidade tão incontornável como a chuva de Inverno.

Mas, dito isto,

compreendemos muito bem o desencanto daqueles que, partilhando a nossa indignação, justificam, no entanto, o intuito de não aderir à greve geral.

Compreendemos perfeitamente a relutância de muitos professores em fazer uma greve convocada por direcções sindicais que, num passado bem recente, por entre ternuras e beijinhos, correram a assinar acordos que mantiveram o essencial dos aspectos mais lesivos para a nossa profissão.

Compreendemos até a repugnância em participar numa greve apoiada por uma central sindical cujo dirigente máximo já veio a público manifestar a sua aquiescência para com o Orçamento-Ladrão e jurar, a pés juntos, que a greve não será feita contra o governo socratino.

E compreendemos também os que não aceitam uma greve geral limitada a um protesto – por imperioso que seja – realizado num único dia, sem ligação a um plano de luta coerente e capaz de oferecer aos trabalhadores um horizonte de resistência com um mínimo de acutilância.

E esta última é, para nós, a objecção maior que se pode colocar à greve do próximo dia 24.

As direcções dos sindicatos não parecem interessadas em prolongar o impacto e os efeitos da greve para lá da sua efectivação.

Poderíamos imaginar que este seria um momento de contagem de espingardas – tendo em conta o número muito significativo de sindicatos que anunciaram a sua adesão -, após o qual se lançariam acções mais determinadas, munidas de um caderno reivindicativo claro e concertado com federações sindicais de outros países europeus. Acções que passariam eventualmente pela repetição, com intervalos curtos, de outras greves gerais. Tantas quantas as necessárias para inverter estas políticas.

A articulação, tão urgente, das confederações sindicais europeias poderia apontar nesse sentido? Contudo, ao vermos que isto conduz apenas a isto, é caso para desesperar…

Portanto, a questão fundamental é esta:

e depois do dia 24?

Desmontando o modelo de gestão das escolas

Posted in Gostávamos de escrever assim por APEDE em 19/11/2011

Mário Carneiro, com o seu blogue «O estado da educação e do resto», é, no nosso país, um dos bloggers que melhor pensam as questões educativas (e o resto). Os seus textos não respeitam algumas das “normas” da blogosfera: não são curtos e estão a anos-luz do pronto-a-consumir de ideias para deglutição distraída. Pelo contrário: são textos por vezes densos, com um rigor argumentativo implacável, e que exigem concentração do leitor. São, em suma, textos de quem pensa, destinados a quem quer pensar. Se, contudo, os lermos até ao fim, somos sempre retribuídos com alguns dos melhores argumentos que circulam na blogosfera a respeito dos problemas que se abatem sobre o sistema educativo em Portugal.

Servem estas palavras de introdução a um conjunto de “posts” nos quais Mário Carneiro tem vindo a desmontar, peça a peça, as contradições e os dislates que afectam o actual modelo de administração escolar. Num momento em que as direcções sindicais parecem ter esquecido um dos piores abcessos da nossa Escola Pública, relegando para um estranho segundo plano aquilo que é, de facto, central e decisivo, estes textos de Mário Carneiro vêm lembrar-nos que continua a pesar nas escolas um modelo de gestão que inquina por completo o quotidiano profissional dos professores.

Chamamos, em particular, a atenção para um aspecto que o Mário sublinha com especial ênfase: o hibridismo, neste modelo de administração, entre procedimentos pseudo-democráticos e procedimentos de gestão “empresarial” que esvaziam totalmente os primeiros. Vale a pena ler:

Apontamentos sobre um desastroso modelo de gestão – 1

Apontamentos sobre um desastroso modelo de gestão – 2

Apontamentos sobre um desastroso modelo de gestão – 3

Apontamentos sobre um desastroso modelo de gestão – 4

Afinal é só cretino

Posted in Conversa de escárnio e mal-dizer por APEDE em 18/11/2011

Há uns tempos chamámos-lhe canalha por causa de uma declarações miseráveis que fez sobre o desemprego como «zona de conforto».

Agora o Paulo Guinote considera-o proto-fascista e o Daniel Oliveira também lhe denuncia as inclinações anti-democráticas.

Parece, no entanto, que estamos todos enganados.

O tipo é apenas cretino.

O problema é que se trata de um cretino que lidera uma Faculdade, que passa a vida a defecar sentenças nos jornais e nas televisões e que até faz estudos encomendados.

Provavelmente, é o país que é cretino…

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