APEDE


Nuno Cortes

Posted in (Des)educação,(Des)governo por APEDE em 01/11/2011

Só agora arranjámos tempo para nos determos na entrevista dada por Nuno Crato ao jornal Público. Chegamos em último lugar, mas não perdemos grande coisa. O conteúdo das declarações do ministro é, de facto, confrangedor.

Se ainda restassem dúvidas sobre o papel de Nuno Crato neste governo, a entrevista tem, pelo menos, o mérito de as desfazer. Nuno Crato não é ministro da Educação e Ciência. É ministro dos cortes cegos – e absolutamente brutais – na Educação e Ciência para ajustar o orçamento desse sector ao cubículo exíguo que lhe está destinado pelo programa da “troika” e pelo seguidismo canino de um governo apostado em ir ainda mais longe no austeritarismo imposto aos portugueses.

Nuno Crato é, portanto, uma amanuense dos cortes. Em vez dele, poderia lá estar qualquer outro. Até mesmo um “robot”. Que ele se preste a semelhante função diz muito da sua falta de espessura política e ética. Mas podemos sempre acrescentar: o que se poderia esperar de quem aceitou integrar um governo cujo programa se resume, no essencial, ao de uma comissão liquidatária dos serviços públicos, dos direitos sociais e laborais?

(Nota à margem: os apoiantes de Santana Castilho compreenderão agora o equívoco de imaginarem que ele poderia ocupar o lugar preenchido por Nuno Crato?)

Talvez Nuno Crato imaginasse ser capaz de resolver a quadratura do círculo (o que, em alguém com formação em matemática, seria sempre estranho). Talvez pensasse ser possível conciliar cortes orçamentais que asfixiam por completo a Escola Pública com reformas cirúrgicas que devolveriam alguma racionalidade ao sistema educativo.

Só que essa hipótese, já de si delirante, é praticamente anulada pelo conteúdo das suas declarações na entrevista. Nuno Crato mostra não ter uma única ideia interessante (ou sequer consistente) a propor no tocante ao sistema de ensino em Portugal. Quando não está ocupado a justificar cortes e reduções, tudo o que sai da sua boca são generalizações vazias, que servem apenas de paupérrima compensação retórica para uma acção essencialmente centrada em contas de mercearia, todas desembocando na redução drástica do pessoal docente – afinal, o objectivo maior das medidas descritas na entrevista. Pensamento estruturado sobre política educativa – ou política de ciência – é coisa que não se vislumbra. 

Diga-se, aliás, que até mesmo na questão dos números a entrevista revela insuficiências gritantes. No que respeita às afirmações de Nuno Crato sobre a poupança supostamente resultante da supressão do Estudo Acompanhado, o Paulo Guinote já desmontou aqui as contradições do ministro.

Esprimidas e enxutas, as declarações de Nuno Crato poderiam limitar-se a isto:

«Quase metade (46,7 por cento) do pessoal da administração central está no Ministério da Educação. É um valor extraordinário. Isso significa que as reduções têm de ser, em grande parte, em pessoal e que têm de se reflectir na educação. Não há nenhum menosprezo pela educação.»

Claro que não. Há só menosprezo por quem trabalha na educação. Como se esta pudesse ser valorizada em tal base. 

Mas note-se a completa arbitrariedade deste pseudo-argumento, que o Paulo Prudêncio escalpelizou aqui. Nuno Crato nem sequer se preocupa em saber se a referida percentagem, atirada levianamente para o ar, corresponde ou não a necessidades efectivas do sistema. Que importa isso, quando é preciso atingir mais de 800 milhões de euros em cortes?

Por isso, a entrevista revela um só resultado palpável e dramático:

contrariamente aos hipócritas de serviço, que continuam a afirmar que a Função Pública tem o posto laboral assegurado, vem aí muito desemprego para os professores. E não apenas para os contratados. Os 1858 professores com horário zero, mencionados por Nuno Crato na entrevista, têm cada vez mais o destino selado. E tudo aponta para que esse número venha a ser engrossado com a reestruturação curricular do Ensino Básico, a qual visa unicamente reduções substanciais no pessoal, sem que tenha por detrás qualquer pensamento estratégico para a Educação.

A conclusão está à vista (estava-o antes mesmo de o governo tomar posse):

Contratados por um ano ou contratados por tempo indeterminado, hoje somos todos contratados a prazo.

O governo de Nuno Crato quer fazer-nos aceitar que a precariedade é a condição normal do trabalhador. Cabe-nos mostrar que não é assim. Que não tem de ser assim.

11 Respostas to 'Nuno Cortes'

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  1. maria said,

    Direitos adquiridos, um mês de férias, intervalos entre os 90`de 2 aulas,…, deixa os Professores relaxados. Redenção, instabilidade, incerteza vai torna-los mais eficientes, gratos e mais esforçados!Precisamos de voltar ao sec XIX para vermos resultados.

  2. fernanda said,

    O meu nome é Cortes.
    Nuno Cortes!


  3. […] Nuno Cortes […]

  4. fjsantos said,

    E a solução para o problema é……
    i) muitos posts a denunciar a coisa;
    ii) assembleias populares para debater as formas de luta;
    iii) manifs à porta da AR, de S. Bento, de Belém, até que estes gajos percebam que “connosco é à séria”!


    • Claro que se a FENPROF (os diversos sindicatos que a compõem) tivesse blogs (e não apenas dossiers sobre blogs), organizasse uma assembleia popular (coisa demasiado perigosa por não ser fácil de enquadrar) ou tivesse convocado uma manif para S. Bento (pelos vistos mais adequado a cordões humanos), essas passariam a ser, de imediato, sem discussão, as melhores soluções para o problema. Mas como, neste momento, a solução adoptada é uma greve geral, essa é que é a poção mágica e o dogma da luta. Se amanhã for uma manif, e outros defenderem uma greve (prolongada, por exemplo), a greve passa a ser uma treta e o que convém é mesmo uma manif🙂 Mais palavras para quê? Força aí com o colectivo assente na democracia de topo! De vitória em vitória até à derrota final.

  5. fernanda said,

    e há ainda a greve de zelo dos agrafos, que é mais uma solução de Cortes…..


    • fernanda,

      Greve de zelo? Às tantas não percebo quem é que é, afinal, a “caixa de ressonància”. Liberte-se desses fantasmas…

      Já agora: qual é a forma de luta mais eficaz para combater as políticas de Crato?

      Não me diga, consigo imaginar. Ou é capaz de me surpreender?

      • fernanda said,

        Do meu ponto de vista, as políticas da Educação não estão desligadas da política geral de quem tem o poder.

        Partindo deste raciocínio, a alternativa terá de passar também pelo combate às políticas/ideologia que moldam a política educativa. E aí, não serão somente os professores a participar nessa luta difícil.

        As manifestações/”lutas” dos agrafos ou da colocação de cartazes na porta dos corruptos podem ser giras e aliviar o stress e a indignação, fazer pressão, mas não chegam.

        E para começar, tentar estarmos unidos. Os que querem resistir e ter um presente e futuro pela frente.

        • fernanda said,

          Não o devo ter surpreendido.

          Sinceramente, já estou a deixar de me surpreender a mim própria. Quanto mais aos outros.

          O que é muito chato, deixe-me confessar-lhe.


        • Não me surpreendeu, é um facto.
          Unidade? Para ser traído de novo? Não, obrigado!
          Mudem-se os protagonistas, depois falamos.

  6. maria said,

    Esta classe é bem representada pela UGT!!!!

    Retiram-se da greve se as 2h30´/ semana forem eliminadas.

    É que nem humor conseguem ter…


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