APEDE


Por que é que os partidos de esquerda e os sindicatos não são capazes de lutar, com eficácia, pelo sucesso de uma alternativa como esta?

Posted in Contra a miopia analítica,Contra o pensamento único por APEDE em 04/11/2011

Jorge Bateira, do blog «Ladrões de Bicicletas», com o qual tivemos uma breve, mas simpática, troca de mensagens numa altura em que nos surgiu a ideia maluca de construir um novo movimento social, publicou ontem, no jornal “I”, um artigo que nos parece da maior relevância. É todo um programa. Um programa que a chamada «esquerda» e as centrais sindicais bem podiam inscrever nas suas agendas, fazendo tudo ao seu alcance para que ele tivesse condições políticas de concretização.

Sabemos que esse programa não tem a revolução escondida nas suas dobras. Nem traz «amanhãs que cantam» com «socialismos reais» de péssima memória. É, tão-só, uma maneira de pôr o capitalismo a funcionar na Europa, restringindo os movimentos especulativos e o poder do capital financeiro, garantindo o crescimento económico, o emprego e afastando o cenário de depauperação maciça das classes médias.

Acham pouco? Então olhem para o Brasil e roam-se de inveja.

Entretanto, aqui fica o texto de Jorge Bateira (para ver se o pessoal pensa mais e melhor):

Nas televisões a pergunta tornou-se um ritual: mas há alternativa? Em causa está o unânime reconhecimento de que o governo impõe ao país uma política cruel em nome da vaga esperança de que um dia a economia voltará a crescer sem novo endividamento. E, à boleia da austeridade selvagem e inútil, o governo aproveita a oportunidade para reconfigurar a sociedade portuguesa segundo o modelo neoliberal anglo-saxónico sem que o país tenha voto na matéria. Pois bem, a minha resposta é “Sim, há alternativa”.

Quando digo que há alternativa refiro-me à estratégia de um governo determinado a defender o interesse nacional, face à UE e face ao bloco central dos negócios que recruta cúmplices entre os agentes do Estado. Um governo decidido a romper com os preceitos da doutrina neoliberal consagrados no Tratado de Lisboa. Um governo que não está à vista, é certo, mas um governo que os portugueses vão ter de eleger se quiserem mesmo evitar um empobrecimento geral por longas décadas.

Imaginemos então que emerge uma nova força política, um partido com características de movimento social. Esta força política defenderia no seu programa uma estratégia global de saída da crise e de desenvolvimento do país, uma alternativa que a esquerda tradicional, limitada às lutas de resistência, tem grande dificuldade em formular. Do seu programa constaria a decisão de romper com o memorando da troyka e a intenção de não respeitar as normas comunitárias que impeçam a execução da estratégia de desenvolvimento de que o país precisa. Recordo que esta política de desobediência não poderia ser travada porque os Tratados não previram qualquer procedimento de expulsão de um membro da zona euro.

Um governo liderado por este partido produziria uma convulsão na UE. O país perderia o financiamento comunitário, pelo que a primeira decisão a tomar seria a retirada do Banco de Portugal do sistema europeu de bancos centrais acompanhada da ordem de financiar o défice orçamental. Ao mesmo tempo, decretaria a nacionalização temporária dos bancos e o controlo estrito dos movimentos de capitais de curto prazo para travar a especulação. O serviço da dívida pública seria suspenso até se concluir uma auditoria. Mas o país permaneceria na zona euro.

É fácil imaginar o horror que causaria na Alemanha a criação de moeda fora da tutela do BCE. As tensões políticas, já bem visíveis, tornar-se-iam então insuportáveis. Cansada de tentar resolver a crise do euro sem gastar nem mais um cêntimo, a Alemanha, acompanhada por meia dúzia de países, acabaria por abandonar o euro e criar um “euro-marco”. Ficaria assim aberto o caminho à transformação da zona euro, agora “euro-sul”, designadamente a passagem do euro a uma moeda bancária comum destinada a pagamentos externos. De forma organizada, as moedas nacionais seriam reintroduzidas e ligadas à moeda comum por câmbios flexíveis. Uma desvalorização do novo escudo, a introdução de um IVA muito agravado para bens de consumo duradouro importados, a reposição dos rendimentos que foram retirados à função pública e uma reforma fiscal redistributiva dos rendimentos mais elevados, incluindo os do capital, para os cidadãos mais pobres, criariam as condições iniciais necessárias à retoma do crescimento no curto prazo.

Como se vê, a alternativa ao empobrecimento por décadas não é necessariamente a saída do euro, como também não é apenas a resistência popular. Dir-me-ão que a alternativa é um exercício de imaginação. Pois seja, mas então vejamos. Dentro de pouco tempo, a Itália concluirá que não pode pagar os juros do mercado. Qual é a fonte de financiamento que lhe resta para além do Banco de Itália?

8 Respostas to 'Por que é que os partidos de esquerda e os sindicatos não são capazes de lutar, com eficácia, pelo sucesso de uma alternativa como esta?'

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  1. fernanda said,

    Um bom site, com textos onde se apontam alternativas e outros modos de analisar a economia, as finanças a europa e a globalização.

    Sempre a ler, com atençao, este “Ladrões de bicicletas”.

  2. fernanda said,

    Outro texto, com outra perspectiva. Para contrariar o mainstream ad nauseum dos Duques, dos Cantigas e outros…:

    http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2011/11/agonia.html

  3. fjsantos said,

    Cada um lê os textos disponíveis de acordo com as lentes que coloca à frente dos olhos.
    E selecciona, para escrever os seus próprios textos, a informação que acha relevante para convencer os seus leitores da bondade das posições que veicula.

    Valorizando a qualidade do blogue “Ladrões de Bicicletas”, da generalidade dos seus textos e respectivos autores, afirmo sem a menor dúvida de que já existe em Portugal o “partido com características de movimento social” e que esse partido defende o “rompimento com o memorando da troyka e a intenção de não respeitar as normas comunitárias que impeçam a execução da estratégia de desenvolvimento de que o país precisa”.

    Claro que os revolucionários trotskistas olham as coisas com uma outra “argúcia” e “esclarecimento”, como muito bem explica o João Valente Aguiar, a propósito do “atraso na emergência da revolução grega”:

    http://5dias.net/2011/11/07/voluntarismo-nenhum-delirio-muito-menos-revolucao-ao-virar-da-esquina-esta-quase-porque-ainda-nao-aconteceu-por-causa-dos-mauzoes-da-burocracia-sindical-e-estalinista/#more-73686

    • Mário Machaqueiro said,

      Francisco,

      Como podes imaginar, se há diferendo para o qual me estou rigorosamente nas tintas e que, na verdade, só me dá vontade de rir é o que divide comunistas “ortodoxos” e “trotskistas”. Acontece que eu gostaria que o pessoal de esquerda fosse, não propriamente trotskista e muito menos estalinista, mas um bocadinho “leninista”. Isto é: que colocasse seriamente a questão do poder. Como lá chegar? Ou, por outras palavras: o que fazer para que a agenda política da esquerda tenha influência?
      Mas, neste ponto, é muito provável que o diferendo passasse a ser outro. Um diferendo sobre essa agenda, precisamente. O que Jorge Bateira defende no “post” que aqui citámos é, no essencial, uma agenda em que muita esquerda “radical” não se reconhece (basta ver, aliás, como alguns “bloggers” do «5 Dias» lhe reagiram). O que Jorge Bateira sustenta, e que eu subscrevo, é um conjunto de medidas para pôr o capitalismo a funcionar na Europa num quadro de justiça social, com crescimento económico e salvaguarda dos direitos sociais e laborais. Algo parecido com o que países como o Brasil e a Argentina estão a conseguir. Não se advoga, pois, nenhuma revolução socialista, a qual, aliás, depois do miserável colapso dos regimes ditos “comunistas”, ninguém sabe verdadeiramente o que possa ser (tu sabes?). Estará o teu tão amado PCP disposto a apoiar uma agenda dessas e a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para a concretizar? Duvido, apesar de, como já disse várias vezes, o PCP se ter convertido há muito ao programa (para ele “mínimo” e “burguês”) da social-democracia. Nada contra. Só é pena esse partido nada fazer para que esse programa tenha viabilidade em Portugal.

  4. Zé Manel said,

    De facto, este mini-programa revela lucidez e coerência, mas escamoteia um obstáculo fundamental. Não vejo como permanecer no Euro, nacionalizar os bancos e suspender a dívida ao mesmo tempo. O directório franco-alemão (que se está nas tintas para os tratados e para as instituições da UE) iria opor-se tenazmente e forçar Portugal a voltar ao escudo. O seu valor cairia para níveis perto do zero porque ninguém iria aceitar pagamentos em escudos. Ora, como temos de importar tudo e mais alguma coisa, isso significaria o colapso total da nossa economia, a pauperização repentina da maioria da população e o desaparecimento da nossa indústria. Como já alguém disse, o programa de estrangulamento da Grécia só tem paralelo no Chile de Pinochet. Na verdade, a guerra aproxima-se….

    • Mário Machaqueiro said,

      Zé,

      Agora és tu que me pareces demasiado pessimista. O cenário que Jorge Bateira coloca seria de tal forma inédito que é muito difícil prever o que iria acontecer. Provavelmente até haveria outros países a imitarem o primeiro que ousasse dar os passos que ele advoga. Aqueles que pensam que o poder está todo do lado do directório franco-alemão esquecem-se de um pormenor: os países ditos “periféricos” também possuem uma arma que é, paradoxalmente, a da sua dívida. Se eles tomarem a iniciativa de assumir unilateralmente o incumprimento, os chamados “mercados” – isto é, a banca que se debate com os seus passivos gigantescos e a falta de liquidez – tremem como varas verdes. Como agora se viu com o mero esboço de ameaça de a Grécia se recusar a continuar o jogo austeritário. É verdade que até poderiam impor-nos o regresso ao escudo – algo que, no entanto, não está previsto em nenhum tratado. Mas isso implicaria, dado o volume do que ficaria por pagar da nossa parte, o colapso total do euro, com as regras que o definem actualmente. Por outro lado, não é líquido que, como tu dizes, ninguém aceitasse pagamento em escudos. Isso poderia acontecer num primeiro tempo. Mas está provado, pelo que aconteceu com a Argentina, que essa espécie de “castigo” dura muito pouco tempo. Pois as fontes de financiamento estão interessadas em fazer dinheiro, e não deixam muito tempo de lado os Estados que precisam de se financiar para crescer economicamente, sobretudo se essa perspectiva de crescimento for muito mais viável do que é agora.
      Uma coisa é certa: o caminho que nos está a ser imposto, e que os nossos governantes aplicam servilmente, não nos leva a lado algum a não ser ao prolongamento indefinido de uma espiral de recessão e de endividamento. Vale a pena tentar outros cenários, não?

  5. Zé Manel said,

    Diante do abismo que temos na nossa frente, creio que temos mais é que equacionar todos os outros cenários alternativos. Um deles poderia ser a LIGA dos PERIFERICOS, por oposição ao eixo Paris-Berlim. Se os PIGS se unissem em vez de se diferenciar, apresentando uma frente comum de exigências justas e razoáveis, a coisa podia ser bastante diferente. Por outro lado, temos de pôr em cima da mesa e rápidamente um plano B ou C, que antecipe os cenários da implosão do Euro. Os agiotas da alta finança sabem perfeitamente que a dívida nem sequer é pagável, mas fazem disso tabu absoluto. Logo, apenas pretendem manter tudo como está, para ir sugando o que for possível durante o tempo que nós lhes dermos, pois sabem bem que isso tem os dias contados. Como está fora de questão podermos resolver os nossos problemas sozinhos, teremos de buscar apoios internacionais onde conseguirmos. Deve ser por isso que o programa do governo não contém uma linha sequer sobre qualquer questão europeia ou internacional.

    • Mário Machaqueiro said,

      Em relação ao plano B e C, perfeitamente de acordo. Quanto à união dos “PIIGS” contra o austeritarismo, também concordo. Só que esta última ideia, que alguma esquerda tem defendido com insistência, apresenta o inconveniente de estarmos dependentes do que os outros queiram fazer. Neste momento, temos de pensar em iniciativas exequíveis que dependam, acima de tudo, de nós. É por isso que a ideia do Jorge Bateira me parece bastante interessante, pois ela assenta, acima de tudo, no poder de iniciativa que o Estado português possa apresentar. É claro que ela não passa de uma utopia com estas coisas ínfimas que actualmente nos governam…


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