APEDE


Receita para perceber a crise: amarrar toda a gente a uma cadeira e obrigá-la a ver este filme

Posted in De olhos bem abertos por APEDE em 04/11/2011

Só agora tivemos oportunidade de ver, de uma ponta à outra, este filme:

Embora centrado na crise do mercado financeiro nos Estados Unidos, ele é de uma enorme importância didáctica para todos nós. Porque essa crise é o que está na raiz de toda a catástrofe económico-financeira mundial. É o que está na origem da crise grega, da crise portuguesa, da crise da zona euro e da União Europeia. E as lições que podemos retirar do filme aplicam-se inteiramente ao nosso caso.

As lições são estas:

– A matriz inicial da crise da dívida pública ou da dívida dita «soberana» (expressão irritante) não foi, primordialmente, da responsabilidade directa dos Estados ou dos governos, pelo menos na Europa. Ela foi (e continua a ser) uma crise do sector financeiro, assente num pequeno conjunto de bancos norte-americanos de dimensão global, cujos dirigentes ganharam milhões de dólares em jogadas especulativas de alto risco com produtos financeiros virtuais, contaminando os maiores bancos do restante mundo capitalista, que se deixaram embarcar nas mesmas jogadas ao apostarem os seus activos nesses produtos tóxicos (caso da banca alemã). Fizeram-no com total cobertura das agências de notação financeira, elas mesmas beneficiárias do esquema – as tais agências que, recentemente, têm andado entretidas a espezinhar a Grécia e Portugal.

– A responsabilidade política dessa crise cabe inteirinha aos governos norte-americanos, desde a era de Ronald Reagan até George W. Bush, passando por Bill Clinton. Esses governos foram desregulando o sector financeiro, permitindo que os dirigentes e meia dúzia de grandes accionistas dos bancos de investimento, mas também dos bancos de poupança, fizessem fortunas obscenas com esquemas de “pirâmide” que ninguém controlava. Esse sector corrompeu totalmente a classe política de Washington, que é paga para servir a sua ganância. Barak Obama não é excepção a esta regra.

– O sector financeiro corrompeu também a classe académica dos economistas que, com raras e honrosas excepções, tem as suas figuras mais notórias ao serviço da cupidez bancária, legitimando-a ideologicamente, tratando dos esquemas técnicos que a sustentam e ganhando, de permeio, rios de dinheiro com isso. Entre os momentos mais reveladores do filme estão aqueles em que alguns desses economistas são apanhados, para seu embaraço, na contradição de uma pretensa ciência feita à medida de chorudos interesses privados. Olhamos para eles e pensamos logo em salafrários como este (também estamos bem abastecidos deles).

– Nenhum dos culpados foi parar à pildra. Na verdade, nem um só teve de indemnizar o Estado. Pior: todos eles estão a gozar os milhões que roubaram às próprias empresas que dirigiram. Obama não só os manteve impunes como foi chamar, para a equipa governativa e para seus conselheiros em política económica, as mesmas figuras que, nas administrações anteriores, foram os principais defensores da desregulação do sector financeiro. A qual continua de pedra e cal. Com os bancos mais fortes que nunca. E a reiterarem as mesmas práticas que levaram à crise.

– Em contrapartida, são os contribuintes – e por «contribuintes» entenda-se classe média e média-baixa – que foram chamados a pagar os gigantescos buracos existentes nos bancos.

– E o mesmo acontece numa Europa que, no essencial, obedece aos princípios de desregulamentação do sector financeiro que vigoram nos Estados Unidos.

– Se a banca europeia não estivesse sem liquidez por ter estado altamente exposta às aventuras da banca norte-americana, os ideólogos que passam por economistas não estariam agora a dizer que os cidadãos comuns andaram a viver «acima das suas possibilidades». Continuaria a haver dinheiro para alimentar o endividamento privado e os défices orçamentais – que em Portugal, antes de 2008, até nem eram especialmente elevados. 

– A transferência de culpas do sector financeiro para os Estados, descritos como demasiado “gordos”, é o grande embuste deste ainda curto, mas já desgraçado século. Esse embuste está a ser produzido por aqueles que a alta finança corrompeu: políticos do “centrão” ou do “direitão”, economistas pagos a peso de ouro para vomitarem falácias quando não estão a fazer “consultoria” empresarial, e jornalistas igualmente venais.

Primeira conclusão: com a crise, nada de substancial mudou no centro do poder político-económico.

Segunda conclusão: para que haja mudanças efectivas, vai ser preciso muita, mas mesmo muita, porrada.

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