APEDE


Ética e política para tempos sombrios

Posted in Considerações intempestivas por APEDE em 08/11/2011

Tudo indica, hoje, que nos aproximamos a passos largos da completa implosão do projecto que deu origem à União Europeia. E tudo indica que, das suas ruínas, irá ressurgir uma Europa que julgávamos enterrada mas que, na verdade, permaneceu apenas em estado de latência. Uma Europa medonha, feita de rivalidades identitárias e de egoísmos nacionalistas. Uma Europa com tanto de angustiado como de intolerante e racista. Uma Europa que, de resto, nos recordou a sua verdadeira face não há muito tempo, durante o conflito que colocou a ex-Jugoslávia a ferro e fogo, recuperando o cortejo de horrores em que este continente foi fértil nesse terrível século XX: genocídio, campos de concentração, cidades arrasadas, guerra total.

Momentos históricos como este correspondem ao que alguns filósofos chamaram «situações-limite». Aquelas que, de tão extremas, apelam à máxima exigência ética. Confrontados com elas, somos forçados a escolhas que nos definem de uma vez por todas.

Momentos históricos como este requerem uma lucidez absoluta e a capacidade de não embarcar nos cantos de sereia do populismo, da demagogia, do dogmatismo, do culto da acção e da força, da idolatria e do sectarismo.

Momentos históricos como este obrigam, mais do que nunca, a resistir à tentação do rebanho e a assumir o peso de decisões minoritárias e, muitas vezes (demasiadas vezes), solitárias. Quando a solidão é a condição paradoxal da solidariedade, sempre que as maiorias alinham com a destruição dos mais fracos, expostos ao papel de bodes expiatórios.

Vem isto a propósito de um texto particularmente lúcido que Rui Bebiano publicou, há umas semanas atrás, no seu blogue. Aí o autor antecipava dois cenários possíveis, e complementares, na evolução da actual trajectória da Europa: o regresso do autoritarismo de direita, mais ou menos fascista ou neonazi, e o crescimento de uma esquerda antidemocrática, tão violenta e tão intolerante como o seu aparente antagonista. Fascismo negro e fascismo vermelho, irmãos-gémeos no fanatismo e na vontade de esmagar toda a dissidência, todo o livre-pensamento.

Exageramos na previsão? A verdade é que já anda por aí, à direita mas também à esquerda, muito candidato a vestir a farda militarista dos SS ou dos comissários políticos de péssima memória. Há por aí muita gente que não esqueceu nada e que nada aprendeu. Leiam coisas como esta e estremeçam.

Poderão sempre pensar que se trata de flatulências mentais de mentes alucinadas. Pois é. Também houve certamente algumas pessoas que, ao observarem os primeiros passos políticos de Hitler, terão sorrido com desdém, julgando estarem diante de um pobre diabo, megalómano mas essencialmente ridículo e inofensivo. A história mostrou, no entanto, que basta proporcionar a esses homúnculos uma porção de rastilho que logo eles se encarregam de provocar os piores estragos.

Este tempo não se compadece com distracções nem complacências de cada vez que uma besta política esboça o seu esgar. Podemos acordar um dia no «1984» de Orwell, com uma bota cardada a pisar-nos o rosto e a consciência.

3 Respostas to 'Ética e política para tempos sombrios'

Subscribe to comments with RSS ou TrackBack to 'Ética e política para tempos sombrios'.

  1. Zé Manel said,

    Uma concretização do que ficou dito aconteceu numa pequena cidade alemã onde um grupo de neo-nazis incendiou uma residência destinada a estrangeiros que aguardavam legalização. O facto de amaioria destes serem de origem turca, justifica amplamente a violência da acção, claro!!!!. Tudo isso seria expectável (dizem-me). Mas o mais impressionante não foi o ataque em si. Enquanto os emigrantes se debatiam para apagar as chamas e os cabeças rapadas se riam no exterior, os passantes comuns, os cidadãos anónimos, esses repositórios da virtude, homens e mulheres de vários grupos etários paravam e batiam palmas…aplaudiam com entusiasmo. Na verdade, o monstro está apenas adormecido…….

    • Mário Machaqueiro said,

      … E pode acordar (e vai acordar) a qualquer momento. O problema é que o monstro não existe só pelas bandas da extrema-direita. Existe também em muita esquerda dita “radical”. E aparece nos lugares mais inesperados. Não sei se acompanhaste a polémica recente que, em vários blogues, suscitou a publicação no jornal «Avante!» de um texto absolutamente paranóico que vai ao ponto de desenterrar os «Protocolos dos Sábios de Sião» (ver a coisa aqui: http://www.avante.pt/pt/1978/argumentos/116792/). Quando uma nojenta falsificação histórica, que serviu de pretexto para os nazis exterminarem 6 milhões de pessoas, é invocada como séria num artigo publicado pelo órgão central do PCP, está tudo dito sobre o que nos espera no futuro sombrio que temos pela frente!


  2. […] um texto excelente de Daniel Oliveira, que casa muito bem com o que dissemos aqui. Share this:Gostar disto:GostoBe the first to like this post. Deixe um […]


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: