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Estupidez ao quadrado

Posted in Coisas que não dá para acreditar por APEDE em 18/11/2011

Será que o pessoal se começa (mesmo) a mexer?

Posted in Eppur si muove? por APEDE em 18/11/2011

A CIÊNCIA CONTRA O PENSAMENTO ÚNICO. ALTERNATIVAS À CRISE

A convocação de uma greve geral por parte da CGTP-IN e da UGT para o próximo dia 24 de Novembro constitui uma oportunidade de intervenção crítica. Conscientes da partilha de problemas generalizados aos restantes trabalhadores e de particulares dificuldades e responsabilidades perante a sociedade, nós, investigadores e estudantes do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa decidimos participar nesta ocasião, dando resposta a uma necessidade amplamente sentida entre os cientistas sociais. Neste sentido, no próximo dia 22 de Novembro convidamos todos os interessados a fazer uma reflexão e debate aberto em torno do quadro de crise que nos é imposto e de como propor eficazmente à sociedade formas alternativas de lidar com os problemas actuais.

A crise, provocada por um domínio crescente dos mercados financeiros sobre as mais diversas esferas sociais e políticas, reproduz-se sistematicamente ao apresentar soluções, tidas como inevitáveis, que a experiência recente demonstra que contribuem apenas para agravar o problema. Do programa de medidas definido pela Troika às políticas de contenção orçamental propostas pelo actual governo, a austeridade tornou-se no único caminho viável. Uma via que, contudo, não deixa de assumir os mais assimétricos contornos, concentrando o ónus do sacrifício nos mais desprotegidos.

À semelhança de outras relevantes áreas sociais, a investigação científica e o ensino são também vítimas de tal lógica. O anúncio de cortes orçamentais já programados para o próximo ano vem, neste sentido, agravar as condições de trabalho de todas as pessoas envolvidas na criação e produção de ciência, já por si afectadas pela precarização e erosão progressiva de direitos. Uma dinâmica que, a expandir-se, representa uma forte ameaça às condições de produção do conhecimento científico e à sua própria autonomia, numa altura em que é ainda mais necessária a sua capacidade de propor alternativas aos lugares-comuns e preconceitos dominantes.

 

Por considerarmos necessária a criação de formas de debate que permitam pensar a crise e a política de uma forma aberta e não limitada pela ideologia do inevitável, convidamos à discussão, a partir das 14 horas do dia 22 de Novembro de 2011, na Sala Polivalente do ICS/UL, dos seguintes temas:

1 – O ensino superior e a investigação científica, as condições de quem neles trabalha (investigadores, docentes, estudantes e funcionários) e as limitações à produção de conhecimento;

2 – Responder à crise: alternativas e formas de intervenção.

Aqui está uma iniciativa que merece todo o nosso apoio

Posted in Cidadania,Resistências por APEDE em 16/11/2011

POR UMA AUDITORIA CIDADÃ À DÍVIDA PÚBLICA

Com uma Convenção a ter lugar em Lisboa a 17 de Dezembro de 2011 que institua um processo de Auditoria Cidadã à Dívida Pública.

Porque é possível realizar iniciativas fora das rotinas e dos rituais inconsequentes.

Porque são possíveis acções que não se limitem a maquilhar uma impotência colectiva.

Porque é possível lutar por mudanças efectivas que contrariem a ordem instituída.

A lata não tem limites

Posted in Total falta de vergonha por APEDE em 14/11/2011

Rumo à pós-democracia

Posted in Be afraid be very afraid por APEDE em 14/11/2011

Pedra rolante em cabeça dura tanto dá até que fura

Posted in Liberdade livre por APEDE em 14/11/2011

Em 1965, Bob Dylan gravou uma daquelas canções que, uma vez em 50 anos, conseguem provocar abalos sísmicos de elevada intensidade. “Like a Rolling Stone” é uma delas.

Só que, com essa canção, o autor despiu definitivamente o colete-de-forças em que pretendiam metê-lo. Queriam-no um cantor “de intervenção”, formatado segundo o modelo folk inventado por Woody Guthrie e Pete Seeger – e que ele, Bob Dylan, reformulou de alto a baixo. Queriam-no só com instrumentos acústicos, bem comportado e previsível.

Eis senão quando o bardo da música folk e da canção de protesto aparece a transgredir todos os limites, reinventando-se como um poeta e um músico inclassificável, fora de todos os formatos. Impregnou a sua música com o ruído insustentável da electricidade, e é bem possível que o “rock” adulto, exigente e inconformado tenha nascido com esta canção.

A actuação ao vivo gravada neste vídeo aconteceu em Londres, 1965. No final da canção ouve-se um imenso coro de assobios, que se sobrepunha aos aplausos. Foi assim durante todo o “tour” que Bob Dylan empreendeu em Inglaterra nesse ano. Os concertos esgotavam, mas o público, com raras e honrosas excepções, ia lá para apupar o “traidor”, o “vendido”, o “reaccionário” que se tinha passado da “boa” música folk para a “demoníaca” música rock. Sabe-se, aliás, que muito daquele público, fanático e imbecilizado, tinha sido recrutado pelo… Partido Comunista Britânico.

Moral da história: ontem como hoje, a intolerância e a estupidez não têm cor política. Atravessam todos os quadrantes e pousam, sobretudo, naquelas cabecinhas que não conseguem pensar para lá do que encornaram em manuais ideologicamente bafientos.

Porque a liberdade vivida, essa, é bem mais rara do que parece. E por isso incomoda tanto todos aqueles que não conseguem viver sem tutores.

“Post” politicamente incorrecto sobre manifs., greves gerais (de um dia) e outras coisas que tais

Posted in De olhos bem abertos por APEDE em 13/11/2011

O famoso bloqueio que, em 1994, algumas dezenas de camionistas empreenderam contra o aumento das portagens na ponte 25 de Abril foi, nessa altura, acompanhado por uma forma de protesto assaz original e curiosa: os condutores que passavam pelas portagens buzinavam longamente. Note-se que, ao fazê-lo, não deixavam de, obedientemente, pagar as respectivas portagens contra as quais protestavam desse modo singularmente ruidoso. Toda a gente sabe o que aconteceu a seguir: com tanto buzinão, e mesmo com bloqueio incluído, o aumento das portagens não só se manteve como, depois, o preço de passar pela dita ponte aumentou já por diversas vezes. Sem novos buzinões que, entretanto, migraram para outras vias, sempre com o mesmo e invariável efeito: não impedir qualquer aumento das portagens impostas.

Num certo sentido, o buzinão é o paradigma do protesto social mais comum no Portugal democrático: inócuo, totalmente ineficaz e, muitas vezes, voltando-se contra os próprios contestatários (no caso dos buzinões, são os seus tímpanos que mais sofrem).

Vem isto a propósito das manifestações de rua e das greves gerais de um dia tão apreciadas pelos situacionistas do protesto – direcções dos sindicatos, partidos supostamente à esquerda do PS e os novos «indignados». São maneiras de mostrar que há muitas pessoas descontentes com a governação do país, servem para a usual contabilidade das cabeças (que não das espingardas, pois é sempre tudo muito pacífico e muito legal). Servem também, e sobretudo, para os participantes descarregarem emoções habitualmente reprimidas no rame-rame diário. E servem para as tais direcções sindicais e os tais partidos de esquerda aparecerem nos noticiários a debitarem os “sound-bytes” da “luta”. No caso particular das greves gerais de um dia, servem elas para que os funcionários públicos – pois só estes, praticamente, fazem greve – dêem um dia do seu salário a um Estado que, em troca, os trata cada vez mais como “recursos” descartáveis.

Mas nada disto serve para nada mais do que isto.

Quando não estão inscritas num programa que aponte, de maneira clara, para uma transformação das relações de poder e da ordem política instituída, manifestações de rua e greves de um dia esgotam-se em si mesmas. São protestos, sim, mas na sua forma mais infantil: aquela em que o protestante se coloca na posição do filho que contesta as decisões do pai sem jamais sair da sua posição subordinada, visto que nunca imagina poder inverter essa relação de subordinação. Não: está à espera que o pai o ouça e que, ouvindo-o, mude as suas decisões. É claro que o pai se está nas tintas. Pode até condescender e afirmar, paternalisticamente, que compreende as razões de protesto mas que não tenciona alterar um milímetro na sua posição. Pai é pai, e filho é filho.

Protestos assim são meros exercícios de impotência. E uma impotência colectivamente partilhada é só uma impotência elevada ao cubo.

Estão todas as manifestações e todas as greves (de um dia) condenadas a esta triste condição? Nem sempre. Sabemos bem que, nos idos de 2008, houve manifestações de professores, e uma greve de docentes com a maior taxa de participação de sempre, que não foram realizadas sob o signo da impotência. Pelo contrário, foram uma exibição de força, num momento em que se vivia um clima pré-insurreccional nas escolas. Se essa força tivesse sido aproveitada, as relações de poder entre os professores e o governo poderiam ter sido invertidas a favor da classe docente.

Só que, rapidamente, os profissionais e situacionistas do protesto e da luta-faz-de-conta reapareceram em cena e conseguiram tomar conta do processo, com os meios de que dispõem (e cuja dimensão financeira, no caso dos sindicatos, o Ricardo Silva escalpelizou muito bem num seu comentário a um dos nossos últimos “posts”). Fizeram aquilo que melhor sabem fazer e que as tutelas políticas esperam deles : travar iniciativas de resistência dentro dos locais de trabalho, arrefecer o ambiente que se vivia nas escolas, incutir o receio nos professores em relação àquilo que os situacionistas fingiam apregoar – a não entrega dos objectivos individuais da ADD. Em suma: desmobilizar um movimento que não convinha às pequenas estratégias político-partidárias que tomaram, há muito, conta dos sindicatos.

São estes farsantes que agora pretendem vestir a pele de lutadores “à séria”. Só mesmo os mais ingénuos ainda engolem essa história da carochinha.

Com as suas manifs. e as suas greves de um dia, os situacionistas do protesto vão apenas maquilhar a sua impotência e a dos que arrastam com eles. Não estão, de facto, minimamente interessados em modificar a “ordem das coisas”. Estão empenhados em criar eventos que funcionem como válvulas de escape para o descontentamento social, domesticando-o de um modo que o torne aceitável aos senhores do poder. É por isso que os comentadores encartados que comem na gamela dos governos não regateiam elogios ao sentido de responsabilidade das direcções sindicais (elogios que, por vezes, se estendem ao próprio PCP, apresentado como um partido “fiável”).

Com estes profissionais da “luta”, os que mandam podem dormir descansados.

Aprendendo com os outros

Posted in Gostávamos de escrever assim por APEDE em 12/11/2011

Simpático, dialogante, boa pessoa e… politicamente irrelevante

Posted in Conversa de escárnio e mal-dizer,Partido "Socialista" por APEDE em 12/11/2011

Ok, ele tem cara de boa pessoa (e é-o, provavelmente), um ar simpático e cordato, e foi sempre de uma enorme gentileza quando nos recebeu na qualidade de presidente da comissão parlamentar para os assuntos educativos. Também é verdade que afivelava uma aura de oposição às políticas de José Sócrates, mas, na hora da verdade (a das votações na Assembleia), alinhava docilmente com a linha socratina. Ele é tudo isso. E é mais uma coisa…

… A mais acabada irrelevância política que já esteve à frente da direcção do PS.

Não precisamos de explicar porquê, pois não?

 

É só rir

Um programa “coerente”: desmontar a segurança social, peça a peça

Posted in Austeritarismo por APEDE em 11/11/2011

Estes gajos andam mesmo a gozar connosco

Posted in Coisas que fazem revolver as entranhas por APEDE em 11/11/2011

A FENPROF anuncia 12 propostas reivindicativas e esquece o modelo de gestão. Porquê?

O Paulo Guinote levanta aqui uma importantíssima questão que os sindicatos, e particularmente a maior federação sindical docente, aparentemente desconhecem e que, uma vez mais, não colocam em cima da mesa negocial, como se poderá constatar facilmente pela leitura das 12 propostas que a FENPROF  acabou de apresentar para “evitar ruturas nas escolas e o colapso do sistema educativo“.

Não discordando do teor das propostas apresentadas e das preocupações manifestadas pela FENPROF, há todavia uma questão central que tem de ser colocada aos seus responsáveis: a absoluta e total ausência de qualquer referência, nesse “caderno de encargos” reivindicativos, à urgente necessidade de reformulação e democratização do atual modelo de gestão das escolas, significará uma rendição sindical, e uma desistência da luta, no que a este assunto diz respeito?

Lembramos que, ainda no passado recente, essa questão era tida como central. Ou pelo menos anunciada como tal.

Com que justificação foi agora abandonada neste conjunto de propostas? Não nos digam que não era oportuno… ou que já consta de outros documentos de “luta a sério”…

Um dia alguém olhará para este nosso tempo e perguntará como tanta estupidez criminosa foi possível…

Posted in Coisas que não dá para acreditar por APEDE em 09/11/2011

Quando se fizer a história dos tempos sombrios que a Europa atravessa, a perplexidade que hoje sentimos será porventura ainda maior. Perguntar-se-á como foi possível convencer as opiniões públicas a esquecer a verdadeira origem da crise (o desvario dos mercados financeiros, decorrente da sua liberalização e desregulamentação), deixando-a intocada, e acreditar que o problema se encontra no Estado e nas políticas públicas. Perguntar-se-á como foi possível subordinar deliberadamente a Política a esses mesmos mercados e aos seus instáveis humores. Perguntar-se-á como foi possível continuar a acreditar (apesar dos ensinamentos do passado e dos sinais acumulados de fracasso do presente) que uma recessão se ultrapassa atravessando o fogo austeritário. Perguntar-se-á como foi possível esmagar a decisão soberana de cada país em matéria de correcção dos défices públicos (em larga medida agravados pelos impactos económicos da própria crise financeira), impondo-lhes unilateralmente a esgotada cartilha, apresentada como inevitável, de desmantelamento do Estado. Perguntar-se-á como foi possível que lideranças tão medíocres tomassem conta do ideal europeu e desprezassem – olimpicamente – um dos pilares que melhor o identificam: a própria democracia. Perguntar-se-á, enfim, como foi possível deixarmo-nos chegar aqui.

Ler o resto aqui.

Desde que isto não se transforme em mais uma «acampada»…

Posted in Resistências por APEDE em 09/11/2011

Comentário visual sobre o futuro da Europa

Posted in À beira do abismo,Be afraid be very afraid por APEDE em 08/11/2011

E vivó comunismo! (chinês)

Posted in Be afraid be very afraid por APEDE em 08/11/2011

Ficámos a saber que Jin Liqun, Presidente do Conselho de Supervisão da China Investment, condiciona a ajuda financeira da China à Europa na base da chantagem contra os direitos sociais e laborais dos trabalhadores europeus. No entender desse senhor, os europeus não passam de uns mandriões, que só gostam de apanhar sol na praia, à conta das regalias sociais de que gozam, em vez de trabalharem no duro. E, já se sabe, trabalhar no duro em versão chinesa é mais ou menos isto:

Ou isto:

Ou, numa vertente mais “high tech”, isto:

Sendo que o repouso reservado para trabalhadores não ociosos se parece muito com isto:

Ou (preferencialmente, pois assim nem é preciso abandonar o local de trabalho) com isto:

É uma tristeza imensa que o «modelo social europeu», conquistado por lutas duríssimas – nas quais, convém lembrar, os comunistas tiveram um papel de relevo -, esteja a soçobrar diante da chantagem de quem representa, hoje, a regressão ao capitalismo selvagem do século XIX.

É sabido que China está, actualmente, bem posicionada para ocupar o primeiro lugar na economia capitalista mundial. Semelhante perspectiva deve ser motivo de grande inquietação para todos os que reivindicam a preservação do tal modelo social, hoje cercado por todos os lados (começando pela própria Europa). A chantagem do senhor Jin Liqun mostra que a tendência será para nos aproximarmos, a passos cada vez mais largos, do modelo social chinês: desigualdades ainda maiores na distribuição dos rendimentos, proletarização maciça de todos os sectores (incluindo o terciário) e exploração intensiva do trabalho sem contrapartidas no domínio da protecção social e da qualidade de vida. Se dantes o céu era o limite, agora o limite está na Muralha da China. É lá que vamos ser todos emparedados.

Que, entretanto, esse capitalismo selvagem ainda possa passar, aos olhos de alguns lunáticos, por «construção do socialismo», é algo que só não surpreende quem conheça um pouco da história da ideologia comunista. De facto, assim que tomaram o poder na Rússia, os bolcheviques não fizeram segredo da admiração que nutriam pelos métodos laborais do taylorismo. A inumanidade das linhas de montagem era o ideal de organização do trabalho para homens como Lénine ou Trotsky. Este último sonhou mesmo em criar brigadas de trabalho forçado como paradigma a instaurar no espaço laboral. Alguns, como Aleksei Gastev, idealizaram mesmo uma humanidade futura perfeitamente robotizada. Chamavam a isso «gestão científica do trabalho». É claro que a democratização das relações laborais não passava por estas cabecinhas – que ainda hoje servem de modelo para muito activista e militante que faz uma leitura bastante selectiva da história .

Se, como dissemos acima, os comunistas na Europa ocidental se bateram pelos direitos laborais que acabaram incorporados no tal «modelo social europeu», ao mesmo tempo que os seus congéneres russos faziam tudo para espezinhar esses direitos, isso é uma daquelas contradições que percorreram a trajectória do comunismo, feita de coisas admiráveis e de coisas medonhas.

(Nota à margem: que Jin Liqun escolha a imagem dos preguiçosos a apanhar banhos de sol na praia para vituperar os direitos dos trabalhadores europeus é algo que indica outro aspecto da mentalidade comunista: o ascetismo como modelo de vida, a hostilidade a tudo o que releve do prazer físico e da sensualidade)

Ética e política para tempos sombrios

Posted in Considerações intempestivas por APEDE em 08/11/2011

Tudo indica, hoje, que nos aproximamos a passos largos da completa implosão do projecto que deu origem à União Europeia. E tudo indica que, das suas ruínas, irá ressurgir uma Europa que julgávamos enterrada mas que, na verdade, permaneceu apenas em estado de latência. Uma Europa medonha, feita de rivalidades identitárias e de egoísmos nacionalistas. Uma Europa com tanto de angustiado como de intolerante e racista. Uma Europa que, de resto, nos recordou a sua verdadeira face não há muito tempo, durante o conflito que colocou a ex-Jugoslávia a ferro e fogo, recuperando o cortejo de horrores em que este continente foi fértil nesse terrível século XX: genocídio, campos de concentração, cidades arrasadas, guerra total.

Momentos históricos como este correspondem ao que alguns filósofos chamaram «situações-limite». Aquelas que, de tão extremas, apelam à máxima exigência ética. Confrontados com elas, somos forçados a escolhas que nos definem de uma vez por todas.

Momentos históricos como este requerem uma lucidez absoluta e a capacidade de não embarcar nos cantos de sereia do populismo, da demagogia, do dogmatismo, do culto da acção e da força, da idolatria e do sectarismo.

Momentos históricos como este obrigam, mais do que nunca, a resistir à tentação do rebanho e a assumir o peso de decisões minoritárias e, muitas vezes (demasiadas vezes), solitárias. Quando a solidão é a condição paradoxal da solidariedade, sempre que as maiorias alinham com a destruição dos mais fracos, expostos ao papel de bodes expiatórios.

Vem isto a propósito de um texto particularmente lúcido que Rui Bebiano publicou, há umas semanas atrás, no seu blogue. Aí o autor antecipava dois cenários possíveis, e complementares, na evolução da actual trajectória da Europa: o regresso do autoritarismo de direita, mais ou menos fascista ou neonazi, e o crescimento de uma esquerda antidemocrática, tão violenta e tão intolerante como o seu aparente antagonista. Fascismo negro e fascismo vermelho, irmãos-gémeos no fanatismo e na vontade de esmagar toda a dissidência, todo o livre-pensamento.

Exageramos na previsão? A verdade é que já anda por aí, à direita mas também à esquerda, muito candidato a vestir a farda militarista dos SS ou dos comissários políticos de péssima memória. Há por aí muita gente que não esqueceu nada e que nada aprendeu. Leiam coisas como esta e estremeçam.

Poderão sempre pensar que se trata de flatulências mentais de mentes alucinadas. Pois é. Também houve certamente algumas pessoas que, ao observarem os primeiros passos políticos de Hitler, terão sorrido com desdém, julgando estarem diante de um pobre diabo, megalómano mas essencialmente ridículo e inofensivo. A história mostrou, no entanto, que basta proporcionar a esses homúnculos uma porção de rastilho que logo eles se encarregam de provocar os piores estragos.

Este tempo não se compadece com distracções nem complacências de cada vez que uma besta política esboça o seu esgar. Podemos acordar um dia no «1984» de Orwell, com uma bota cardada a pisar-nos o rosto e a consciência.

Por que é que os partidos de esquerda e os sindicatos não são capazes de lutar, com eficácia, pelo sucesso de uma alternativa como esta?

Posted in Contra a miopia analítica,Contra o pensamento único por APEDE em 04/11/2011

Jorge Bateira, do blog «Ladrões de Bicicletas», com o qual tivemos uma breve, mas simpática, troca de mensagens numa altura em que nos surgiu a ideia maluca de construir um novo movimento social, publicou ontem, no jornal “I”, um artigo que nos parece da maior relevância. É todo um programa. Um programa que a chamada «esquerda» e as centrais sindicais bem podiam inscrever nas suas agendas, fazendo tudo ao seu alcance para que ele tivesse condições políticas de concretização.

Sabemos que esse programa não tem a revolução escondida nas suas dobras. Nem traz «amanhãs que cantam» com «socialismos reais» de péssima memória. É, tão-só, uma maneira de pôr o capitalismo a funcionar na Europa, restringindo os movimentos especulativos e o poder do capital financeiro, garantindo o crescimento económico, o emprego e afastando o cenário de depauperação maciça das classes médias.

Acham pouco? Então olhem para o Brasil e roam-se de inveja.

Entretanto, aqui fica o texto de Jorge Bateira (para ver se o pessoal pensa mais e melhor):

Nas televisões a pergunta tornou-se um ritual: mas há alternativa? Em causa está o unânime reconhecimento de que o governo impõe ao país uma política cruel em nome da vaga esperança de que um dia a economia voltará a crescer sem novo endividamento. E, à boleia da austeridade selvagem e inútil, o governo aproveita a oportunidade para reconfigurar a sociedade portuguesa segundo o modelo neoliberal anglo-saxónico sem que o país tenha voto na matéria. Pois bem, a minha resposta é “Sim, há alternativa”.

Quando digo que há alternativa refiro-me à estratégia de um governo determinado a defender o interesse nacional, face à UE e face ao bloco central dos negócios que recruta cúmplices entre os agentes do Estado. Um governo decidido a romper com os preceitos da doutrina neoliberal consagrados no Tratado de Lisboa. Um governo que não está à vista, é certo, mas um governo que os portugueses vão ter de eleger se quiserem mesmo evitar um empobrecimento geral por longas décadas.

Imaginemos então que emerge uma nova força política, um partido com características de movimento social. Esta força política defenderia no seu programa uma estratégia global de saída da crise e de desenvolvimento do país, uma alternativa que a esquerda tradicional, limitada às lutas de resistência, tem grande dificuldade em formular. Do seu programa constaria a decisão de romper com o memorando da troyka e a intenção de não respeitar as normas comunitárias que impeçam a execução da estratégia de desenvolvimento de que o país precisa. Recordo que esta política de desobediência não poderia ser travada porque os Tratados não previram qualquer procedimento de expulsão de um membro da zona euro.

Um governo liderado por este partido produziria uma convulsão na UE. O país perderia o financiamento comunitário, pelo que a primeira decisão a tomar seria a retirada do Banco de Portugal do sistema europeu de bancos centrais acompanhada da ordem de financiar o défice orçamental. Ao mesmo tempo, decretaria a nacionalização temporária dos bancos e o controlo estrito dos movimentos de capitais de curto prazo para travar a especulação. O serviço da dívida pública seria suspenso até se concluir uma auditoria. Mas o país permaneceria na zona euro.

É fácil imaginar o horror que causaria na Alemanha a criação de moeda fora da tutela do BCE. As tensões políticas, já bem visíveis, tornar-se-iam então insuportáveis. Cansada de tentar resolver a crise do euro sem gastar nem mais um cêntimo, a Alemanha, acompanhada por meia dúzia de países, acabaria por abandonar o euro e criar um “euro-marco”. Ficaria assim aberto o caminho à transformação da zona euro, agora “euro-sul”, designadamente a passagem do euro a uma moeda bancária comum destinada a pagamentos externos. De forma organizada, as moedas nacionais seriam reintroduzidas e ligadas à moeda comum por câmbios flexíveis. Uma desvalorização do novo escudo, a introdução de um IVA muito agravado para bens de consumo duradouro importados, a reposição dos rendimentos que foram retirados à função pública e uma reforma fiscal redistributiva dos rendimentos mais elevados, incluindo os do capital, para os cidadãos mais pobres, criariam as condições iniciais necessárias à retoma do crescimento no curto prazo.

Como se vê, a alternativa ao empobrecimento por décadas não é necessariamente a saída do euro, como também não é apenas a resistência popular. Dir-me-ão que a alternativa é um exercício de imaginação. Pois seja, mas então vejamos. Dentro de pouco tempo, a Itália concluirá que não pode pagar os juros do mercado. Qual é a fonte de financiamento que lhe resta para além do Banco de Itália?

Receita para perceber a crise: amarrar toda a gente a uma cadeira e obrigá-la a ver este filme

Posted in De olhos bem abertos por APEDE em 04/11/2011

Só agora tivemos oportunidade de ver, de uma ponta à outra, este filme:

Embora centrado na crise do mercado financeiro nos Estados Unidos, ele é de uma enorme importância didáctica para todos nós. Porque essa crise é o que está na raiz de toda a catástrofe económico-financeira mundial. É o que está na origem da crise grega, da crise portuguesa, da crise da zona euro e da União Europeia. E as lições que podemos retirar do filme aplicam-se inteiramente ao nosso caso.

As lições são estas:

– A matriz inicial da crise da dívida pública ou da dívida dita «soberana» (expressão irritante) não foi, primordialmente, da responsabilidade directa dos Estados ou dos governos, pelo menos na Europa. Ela foi (e continua a ser) uma crise do sector financeiro, assente num pequeno conjunto de bancos norte-americanos de dimensão global, cujos dirigentes ganharam milhões de dólares em jogadas especulativas de alto risco com produtos financeiros virtuais, contaminando os maiores bancos do restante mundo capitalista, que se deixaram embarcar nas mesmas jogadas ao apostarem os seus activos nesses produtos tóxicos (caso da banca alemã). Fizeram-no com total cobertura das agências de notação financeira, elas mesmas beneficiárias do esquema – as tais agências que, recentemente, têm andado entretidas a espezinhar a Grécia e Portugal.

– A responsabilidade política dessa crise cabe inteirinha aos governos norte-americanos, desde a era de Ronald Reagan até George W. Bush, passando por Bill Clinton. Esses governos foram desregulando o sector financeiro, permitindo que os dirigentes e meia dúzia de grandes accionistas dos bancos de investimento, mas também dos bancos de poupança, fizessem fortunas obscenas com esquemas de “pirâmide” que ninguém controlava. Esse sector corrompeu totalmente a classe política de Washington, que é paga para servir a sua ganância. Barak Obama não é excepção a esta regra.

– O sector financeiro corrompeu também a classe académica dos economistas que, com raras e honrosas excepções, tem as suas figuras mais notórias ao serviço da cupidez bancária, legitimando-a ideologicamente, tratando dos esquemas técnicos que a sustentam e ganhando, de permeio, rios de dinheiro com isso. Entre os momentos mais reveladores do filme estão aqueles em que alguns desses economistas são apanhados, para seu embaraço, na contradição de uma pretensa ciência feita à medida de chorudos interesses privados. Olhamos para eles e pensamos logo em salafrários como este (também estamos bem abastecidos deles).

– Nenhum dos culpados foi parar à pildra. Na verdade, nem um só teve de indemnizar o Estado. Pior: todos eles estão a gozar os milhões que roubaram às próprias empresas que dirigiram. Obama não só os manteve impunes como foi chamar, para a equipa governativa e para seus conselheiros em política económica, as mesmas figuras que, nas administrações anteriores, foram os principais defensores da desregulação do sector financeiro. A qual continua de pedra e cal. Com os bancos mais fortes que nunca. E a reiterarem as mesmas práticas que levaram à crise.

– Em contrapartida, são os contribuintes – e por «contribuintes» entenda-se classe média e média-baixa – que foram chamados a pagar os gigantescos buracos existentes nos bancos.

– E o mesmo acontece numa Europa que, no essencial, obedece aos princípios de desregulamentação do sector financeiro que vigoram nos Estados Unidos.

– Se a banca europeia não estivesse sem liquidez por ter estado altamente exposta às aventuras da banca norte-americana, os ideólogos que passam por economistas não estariam agora a dizer que os cidadãos comuns andaram a viver «acima das suas possibilidades». Continuaria a haver dinheiro para alimentar o endividamento privado e os défices orçamentais – que em Portugal, antes de 2008, até nem eram especialmente elevados. 

– A transferência de culpas do sector financeiro para os Estados, descritos como demasiado “gordos”, é o grande embuste deste ainda curto, mas já desgraçado século. Esse embuste está a ser produzido por aqueles que a alta finança corrompeu: políticos do “centrão” ou do “direitão”, economistas pagos a peso de ouro para vomitarem falácias quando não estão a fazer “consultoria” empresarial, e jornalistas igualmente venais.

Primeira conclusão: com a crise, nada de substancial mudou no centro do poder político-económico.

Segunda conclusão: para que haja mudanças efectivas, vai ser preciso muita, mas mesmo muita, porrada.

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