APEDE


Uma excepção à crítica das greves gerais de um dia

Posted in Escrito na areia por APEDE em 25/11/2011

Uma greve geral, para o mesmo dia, nos países da União Europeia ou, pelo menos, nos países da UE que mais sofrem com as medidas austeritárias (Grécia, Portugal, Espanha, Itália, Irlanda, etc.). Também é só simbólica. Mas é um simbolismo capaz de incomodar o real.

Da dificuldade de pensar e agir para além do imediato

Posted in Escrito na areia por APEDE em 23/11/2011

Entre nós, uma das limitações que tem pesado mais sobre as lutas laborais reside na dificuldade em pensar e agir para além do imediato. Esta imediatez relaciona-se, quase sempre, com os interesses corporativos ou as necessidades sectoriais mais básicas. Sendo muitas vezes prementes, e podendo corresponder a situações pessoais dramáticas – como a precariedade do posto de trabalho -, a excessiva concentração nesses interesses ou nessas necessidades impede-nos de ver o quadro mais amplo – no qual se joga o essencial.

Como sabemos, a luta dos professores em 2008 ilustra bem o que acabámos de referir. Deixámos que as nossas exigências, o nosso caderno reivindicativo, se afunilassem no “magno” problema da avaliação do desempenho docente. E fomos, entretanto, descurando toda uma série de ataques que estavam a ser desferidos contra a profissão de professor e contra a Escola enquanto espaço de relações laborais. Resultado: enquanto andávamos obcecados com as grelhas de avaliação, consentimos que se instalasse nos estabelecimentos de ensino um modelo de administração antidemocrático e tendencialmente despótico, criámos condições para que os laços de solidariedade entre colegas se rompessem ou se diluíssem nos calculismos individuais, permitimos que o ambiente de trabalho passasse a ser regulado pela norma do “cada um por si e os outros que se lixem”. Em suma, a nossa miopia colectiva abriu caminho para o sentimento de impotência que hoje experimentamos – e que contrasta, de modo cruel, com a euforia (desajustada) que muitos sentiram nos idos de Março e de Novembro de 2008.

Além disso, o afunilamento da luta de professores traduziu-se, igualmente, em duas incapacidades: a incapacidade de propor alternativas, sólidas e coerentes, aos modelos que contestávamos – começando pelo próprio modelo de avaliação -, e a incapacidade de apresentar, perante o conjunto da sociedade portuguesa, um pensamento alternativo para o sistema de ensino e para a Escola Pública. Ainda hoje somos confrontados com esta crítica por parte de quem, não sendo professor, observava de fora o combate que travávamos: «Parecia que vocês só se preocupavam com os problemas da vossa carreira e que não tinham uma única ideia para contrariar a destruição da Escola em Portugal». Olhando para trás, quem pode dizer que esta crítica é injusta?

E, neste ponto, não vale a pena passarmos culpas para os sindicatos. Ainda que eles possam ter uma palavra no assunto, não faz parte do seu mandato e da sua cultura reivindicativa pensar as grandes questões do ensino e da Escola Pública que transcendam a agenda profissional mais imediata. Caberia aos professores fazê-lo, participando noutras plataformas que eles próprios fossem capazes de construir.

Os movimentos independentes poderiam ter preenchido essa lacuna. E todos aqueles que neles se envolveram sabem perfeitamente como tal necessidade foi muitas vezes invocada e discutida. Tivemos longos debates sobre a melhor maneira de projectar para a opinião pública a ideia de que não estávamos apenas a cuidar de interesses sectoriais limitados, que não estávamos só a olhar para o umbigo. Mas a verdade é que nunca conseguimos passar das boas intenções retóricas. Pela blogosfera circularam algumas ideias, por vezes excelentes mas sempre fragmentárias. E, sobretudo, desprovidas da necessária projecção pública. Ficámos a falar uns para os outros. E, demasiadas vezes, ficámos a falar sozinhos.

Na APEDE procurámos ultrapassar esta falha, construindo uma proposta alternativa para o sistema de ensino com um carácter abrangente. Mas, e não obstante o nosso esforço e as muitas horas de debate criativo a que nos entregámos, há que reconhecer que o fizemos tarde, excessivamente tarde, e sem o tal conhecimento público. Houve alguma discussão blogosférica, breve e esparsa, e a coisa ficou arrumada e esquecida.

Diga-se que, no Ensino Superior, o panorama não é diferente. Talvez até seja pior. Confrontados com a instauração de um modelo de administração tão autoritário e antidemocrático como o que vigora actualmente no Básico e  no Secundário, os professores e investigadores têm-se limitado a cuidar da vidinha e a esgravatar em busca de um lugar ao sol. Às vezes num regime de competição selvagem, porque o sol, quando nasce, é cada vez menos para todos. Se a isto juntarmos o facto de a hierarquização das carreiras no Ensino Superior se fazer com base em estratos incomunicáveis entre si, o isolamento de cada profissional é muitíssimo maior. Isso faz com que os professores, mesmo quando contratados a prazo, dificilmente reconheçam o que têm em comum com os bolseiros de investigação que vivem em condições de precariedade absoluta (sem sequer terem direito a segurança social).

Entretanto, também os profissionais da ciência e do Ensino Superior revelam uma incapacidade notória em pensar a Universidade ou a Ciência para além da agenda reivindicativa mais imediata e mais presa aos constrangimentos da carreira ou da profissão.

Toda esta cegueira para com o tal cenário global onde tudo se articula, todo este défice de pensamento – mais trágico do que o défice financeiro -, é o que nos está a entregar, de pés e mãos atados, àqueles que, calmamente, vão urdindo na sombra o quadro que nos recusamos a ver.   


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