APEDE


E agora?

Posted in Resistências,Revoltas por APEDE em 12/03/2011

Há tempos atrás, formulámos esta pergunta a propósito da greve geral, sabendo que, na conjuntura actual, as formas de luta têm necessariamente de se revestir de uma continuidade que as torne consequentes – e não meros protestos fugazes que não deixem marcas.

A mesma pergunta se pode formular hoje, perante o número impressionante daqueles que se manifestaram. Número tanto mais impressionante, e tanto mais significativo, quando se trata de manifestações que não tiveram, por detrás, nenhuma organização formal. Para quem insiste no carácter anestesiado da sociedade civil portuguesa, este é um facto que obriga a (re)pensar muitas análises.

É certo que determinadas organizações tentaram, às claras e às escuras, cavalgar a onda. Mas a onda nasceu sem elas. Uma lição da qual muitos deverão extrair as devidas ilações.

As pessoas estão fartas de um poder político apostado em lhes minar sistematicamente os direitos conquistados em 1974-75 (os anos do tão vilipendiado PREC, pois claro). E não é certamente por acaso que, hoje, muita gente retomou a palavra de ordem que, no 1.º de Maio de 1974, o povo que encheu as ruas foi buscar ao Chile de Allende: O povo unido jamais será vencido.

Resta saber se as pessoas que gritaram essa frase estão dispostas a extrair dela todas as suas consequências.

Porque, dito tudo isto (que é o óbvio), há que pensar para além das euforias do imediato.

Estas manifestações foram convocadas como veículos de um protesto catártico. E muitos portugueses aproveitaram-nas para descarregar a revolta que lhes mora no espírito. Mas agora há que começar a pensar.

Há que pensar em como fornecer a esse sentimento de revolta as condições para que daí saia um processo de luta continuado, firme e consistente.

Há que articular esse sentimento com um pensamento político minimamente (ou maximamente) estruturado.

Há que propor alternativas que nos façam sair efectivamente do buraco da precariedade, da degradação das condições de vida, da destruição dos direitos sociais e laborais.

Há que perceber que essas alternativas não se situam nos programas políticos do centrão (PS, PSD e CDS) que nos anda a desgovernar há décadas. O pior que poderia acontecer seria que, decorridas as manifestações de hoje, as pessoas aceitassem a abertura de uma crise político-partidária que levasse a uma mera mudança de ciclo eleitoral, por meio da qual regressassem ao poder os mesmos do costume. Isto é: os principais responsáveis, em Portugal, pela crise em que estamos mergulhados. E que estão nos partidos acima referidos.

Há que perceber que a construção das alternativas tem de ser uma tarefa colectiva, muito para além de organizações formais (partidos e sindicatos) totalmente descredibilizadas pela sua cumplicidade com a ordem política que as pessoas recusaram, hoje, nas ruas.

Há que construir o(s) movimento(s) que, nos locais de trabalho e fora deles, possa(m) lutar, com força e determinação, pela preservação dos direitos sociais para todos.

E todos significa: todas as gerações, as de hoje e as de amanhã.

 

De regresso ao pesadelo nas escolas e à necessidade de o combater

Posted in Razões para lutar,Resistências,Revoltas por APEDE em 25/01/2011

Subscrevemos inteiramente o que o Octávio escreve aqui. E se os rumores de que o Ramiro faz aqui eco correspondem à realidade…

… ENTÃO DE QUE É QUE ESTAMOS À ESPERA?

Reflexões actuais (mas pouco natalícias)

Posted in Revoltas por APEDE em 22/12/2010

A revolta de que se fala aqui – cada vez mais patente nas manifestações da Grécia e de Itália – parece prolongar uma violência urbana muito próxima de uma «guerra civil que não ousa dizer o seu nome». Ou de uma luta de classes travada num terreno insuspeitado pelo marxismo clássico. A natureza dessa luta, porém, é de molde a reduzir drasticamente o alcance ideológico (mas não a magnitude agressiva) da conflitualidade social: já não o confronto entre estratos, económica e ideologicamente determinados, mas tão só o conflito, nu e aparentemente “linear”, entre os que têm e os que não têm, entre os que acedem ao mercado de consumo e os que dele são arredados, mas que sofrem do mesmo modo o seu apelo. A revolta destes aparece, por isso, dissociada de qualquer projecto de emancipação (que, entre muitos outros aspectos, teria também de ser anti-mercantil e pós-consumista).

Deste modo, não se nos afigura possível subscrever a visão, apesar de tudo heróica e um tanto romântica – que aqui transparece -, desta revolta sem direcção, órfã e descrente de todos os «sentidos da história».

Certos autores vão ao ponto de afirmar que, no capitalismo do Estado-Providência – e ainda mais quando este surge corroído por todos os lados – a «luta de classes central» se deslocou do conflito entre capitalistas e trabalhadores, para se localizar no conflito entre os que possuem um emprego estável e decentemente pago e os que estão privados de aceder a um tal emprego. Tais autores referem igualmente as dificuldades que se opõem à formação de uma consciência de classe dos job poor e, portanto, de um movimento político neles baseado: a heterogeneidade do grupo dos desempregados ou dos trabalhadores precários, a ausência de orgulho ou até da simples noção de se pertencer a esse grupo, a inexistência de meios de pressão (como a greve) que pudessem ser utilizados de forma reivindicativa, etc.

À primeira vista, não parece prudente, tanto do ponto de vista da análise sociológica como numa perspectiva política, sustentar que o conflito entre empregados e desempregados suplantou, ou relegou para segundo plano, a luta entre capitalistas e trabalhadores. E, contudo, não é de excluir a possibilidade de, no futuro, virmos a assistir a uma aliança perversa entre capitalistas e detentores de empregos estáveis contra a oposição dos desempregados.

Contrariar uma tal aliança passa, assim, por alargar aos que ainda acedem ao trabalho assalariado a consciência da precaridade dessa situação, e, por conseguinte, da afinidade que os liga à massa dos desempregados.

Estamos todos no mesmo barco, à espera de que ele não se chame Titanic…


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