APEDE


Esquerda portuguesa: a caminho da irrelevância?

Posted in Perguntas singelas por APEDE em 19/04/2011

Vai por aí (aqui e aqui, por exemplo) uma polémica sobre se o PCP e o BE agiram bem com a sua recusa em se reunirem com a comissão do FMI. O Paulo Guinote também acrescentou alguma madeira a essa fogueira, criticando a decisão desses dois partidos.

Analisemos então essa postura pelo lado da posição de princípio. Considerando a “troika” (expressão um bocado irritante, porque repetida até à náusea por todos os jornalisteiros do burgo) como pouco mais do que a comissão liquidatária de Portugal, o PCP e o BE entendem que, da sua parte, não há diálogo possível com esses senhores. Note-se, porém, que este é um argumento que também poderia ser aplicado a encontros desses dois partidos com o actual governo ou com o Presidente da República: havendo uma distância tão grande e uma tão evidente dificuldade de diálogo entre tais partidos e tais órgãos de soberania, para quê então reuniões conjuntas? E, no entanto, não passa pela cabeça dos dirigentes do PCP e do BE recusarem encontros com Sócrates ou com Cavaco Silva. E porquê? Porque, alegam os ditos dirigentes, essas reuniões são momentos em que PCP e BE podem expor os seus pontos de vista, sem se sentirem minimamente obrigados a aceitar a perspectiva do antagonista. Mas, nesse caso… não se aplica isto igualmente a uma possível reunião com a comissão do FMI?

À luz de toda a gravidade que se abateu sobre o país, esta discussão pode parecer uma bizantinice. Mas não é. Os que criticam o gesto do PCP e do BE têm alguma razão quando afirmam que a sua auto-marginalização ameaça empurrar esses partidos para a total irrelevância política. E os que pensam que o PCP e o BE vão capitalizar nas urnas a irrisória (mas aos seus olhos grande) bravata, ou que vão poder levantar nas ruas um exército de descontentes galvanizados pela sua recusa, estão a “surfar” numa enorme ilusão.

Para o português comum, pouco politizado (mas sem ele não se ganham eleições), a recusa exibida pelo PCP e pelo BE significa apenas que esses partidos não contam para nada. Nem sequer para construir uma contestação no espaço institucional.

Quanto à hipótese de apostarem tudo na agitação de rua, ocorre-nos a frase «tarde piaste». Depois de investirem tudo no tal espaço institucional – o parlamento e pouco mais -, depois de congelarem qualquer hipótese de movimento social fora do espartilho partidário, depois de se limitarem a colar cartazes e “outdoors” em lugar de promoverem ou encorajarem iniciativas de cidadãos auto-organizados, é agora que o PCP e o BE vão, finalmente, incendiar as ruas? Agora, quando a maioria das pessoas oscila entre a alegre inconsciência – vejam-nas a esgotar as estadias no “Allgarve” -, o atordoamento e o medo, é que se espera uma grande revolta popular?

E depois há outro “detalhe” em que o PCP e o BE pecam por falta de comparência: a necessidade de explicarem o que fariam para responder a uma crise financeira que se traduz neste facto absolutamente básico: o Estado só dispor de dinheiro para pagar salários até Maio. Se a situação é, de facto, assim tão grave, esses dois partidos têm a obrigação de dizer como se pode superar, no imediato, esse gigantesco problema de tesouraria sem se recorrer à intervenção do FMI. E não vale afirmar, como já ouvimos Louçã fazer, que o governo poderia ter accionado uma cláusula qualquer do Banco Central Europeu. Isso são águas passadas, e ainda assim bastante questionáveis, pois não é nada líquido que o BCE alinhasse nesse expediente, sobretudo tendo em conta toda a “boa vontade” que a União Europeia tem estado a demonstrar para connosco.

Portanto, sobra esta pergunta singela: sem o FMI, como é que o PCP e o BE se propõem assegurar o pagamento dos salários dos funcionários públicos (atenção professores, que isto também vos toca!) a partir de Junho? É que, sem responderem a esta questão, nenhum desses partidos é credor dos nossos votos (sendo aqui «credor» uma metáfora de muito mau gosto…).

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7 Respostas to 'Esquerda portuguesa: a caminho da irrelevância?'

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  1. Leitor said,

    Tanta independência, tanto bla-bla esquerdista e, afinal, os mentores da APEDE estão completamente alinhados com o pensamento único dos partidos do FMI e com os comentaristas, economistas e outros especialistas do mainstream político-ideológico.
    Condicionados pela sua formatação ideológica e habituados à subserviência mental, são incapazes de perceber e, muito menos de conceber, soluções alternativas, verdadeiramente estruturantes.
    Reproduzem o discurso dominante e do alto da sua arrogância elitista ainda se permitem aconselhar a esquerda consequente sobre o que deve ser dito aos portugueses “comuns”, “pouco politizados”.
    Papagueiam o discurso do medo, da chantagem, das inevitabilidades, o discurso que serve aos banqueiros a quem se destina a “ajuda”.
    Ignoram olimpicamente as propostas de solução de emergência, apresentadas a 5 de Abril:
    http://www.tsf.pt/paginainicial/Economia/interior.aspx?content_id=1823299

    Uma tristeza estes Apedes.

  2. APEDE said,

    O «Leitor», como de costume, lê depressa e mal.
    Ainda por cima, não responde às perguntinhas singelas que aqui fazemos. Ninguém anda por aqui a dizer que o FMI é a solução para o buraco em que estamos metidos. E estamos bem cientes – basta ler tudo o que aqui tem sido escrito – que existem alternativas. Mas acontece – pormenor nada despiciendo – que nenhuma dessas alternativas consegue responder a um gigantesco problema de curtíssimo prazo: como é que se vai arranjar dinheiro para pagar os vencimentos dos funcionários públicos daqui a dois meses? Se o «Leitor» tiver uma resposta de esquerda para esta pergunta, que não se limite ao primarismo do que acabou de bolsar, nem a vagas esperanças ou a grandes ideias capazes de dar fruto daqui a uns meses ou anos, os «Apedes» agradecem-lhe…

  3. APEDE said,

    Já agora, outra pergunta: a solução para o imediato proposta pelo PCP tem, de facto, viabilidade? Ou seja: haverá quem esteja, no mercado, disposto a comprar aquilo que o PCP propõe que seja vendido? E em que condições se efectuaria essa compra? E para quanto tempo daria ela?
    Uma outra pergunta mais “estrutural”: e se o PCP tem soluções alternativas, onde está o trabalho de criar, na sociedade civil portuguesa, a “agência social” (não gosto muito desta expressão, mas enfim…) que possa sustentar o apoio popular a essas soluções, de modo a que elas sejam mais do que meras “marcações de ponto” mediático?

  4. APEDE said,

    E uma última adenda:
    O Leitor, na sua precipitação sectária, não percebe uma coisa básica no “post” que escrevemos: as perguntas que lá vêm são mesmo perguntas. Não são questões retóricas, que envolvam já a resposta que o Leitor nos atribui.
    O mal dos sectários é que não compreendem que, mesmo críticos, os aliados potenciais são isso mesmo: aliados potenciais. É claro que, para os sectários, só há unidade possível na paz dos cemitérios. Como dizia o outro: não esquecem nada, nem aprendem nada.

  5. Leitor said,

    Para quem não é sectário e qualifica de “primarismo que acabou de bolsar” a argumentação divergente, não se pode esperar grande disponiblidade para entender o quer que seja.
    Mas, adiante.
    Leia-se o artigo completo na ligação citada:
    http://www.tsf.pt/paginainicial/Economia/interior.aspx?content_id=1823299

    ou a resposta dada ontem por Jerónimo de Sousa a uma questão idêntica

  6. Mário Machaqueiro said,

    Quando o dito Leitor passar por aqui e quiser argumentar, sem se limitar ao insulto, terá certamente direito a qualificativos diferentes.

  7. Verissimo said,

    Concordo com o teor do artigo.Sempre tenho votado esquerda,mas mais por uma questão de princípio do que por me rever nesta esquerda que existe actualmente.Ou porque os tempos são outros… a “esquerda” nunca se conseguiu libertar dos seus preconceitos e das suas grandes limitações técnicas, nunca conseguindo apresentar um projecto credível e viável para a sociedade portuguesa.A esquerda só sabe protestar e fazer greves e pouco mais. E faz greves, como as dos transportes públicos, que levam o comum do cidadão ao desespero.E isto vai afastar cada vez mais pessoas da esquerda.Aqueles que não são funcionários públicos já estão fartos disto.O facto do PCP e BE não terem conversado com a tròica, só revela a sua falta de inteligência e de capacidade para o dialogo.Em quem devo votar? vou abster-me, certamente.


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